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Six of Crows: Sangue e Mentiras

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Year:
2016
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788582353813
File:
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SANGUE E MENTIRAS

Tradução: ERIC NOVELLO





Para Kayte,

Arma secreta, amiga inesperada.





Joost tinha dois problemas: a lua e seu bigode.

Supostamente, ele deveria estar fazendo suas rondas na casa de Hoede, mas tinha passado os últimos quinze minutos perambulando perto da parede sudeste dos jardins, tentando pensar em algo inteligente e romântico para dizer a Anya.

Se pelo menos os olhos de Anya fossem azuis como o mar, ou verdes como esmeraldas.

Mas seus olhos eram castanhos – encantadores e oníricos como… chocolate derretido? Pelos de coelho?

“Basta dizer a ela que sua pele é como a luz do luar”, seu amigo Pieter tinha dito. “Garotas adoram isso”.

Uma solução perfeita, mas o clima de Ketterdam não estava cooperando.

Nem uma brisa sequer havia soprado do porto naquele dia, e uma névoa cinza pastosa tinha coberto de umidade os canais e becos sinuosos da cidade. Até aqui, nas mansões da Geldstraat, o ar pesava com o cheiro de peixe e água estagnada, e a fumaça das refinarias das ilhas ao redor da cidade tinha manchado o céu noturno com uma névoa de salmoura. A lua cheia parecia menos uma joia e mais uma bolha amarela que precisava ser estourada.

Talvez ele pudesse elogiar a risada de Anya? O problema é que ele nunca a tinha visto rir. Ele não era muito bom de piadas.

Joost observou seu reflexo em um dos vidros emoldurados nas portas duplas que separavam a casa do jardim lateral. Sua mãe estava certa. Mesmo em seu novo uniforme, ele ainda tinha cara de bebê. Passou devagar os dedos sobre o lábio superior. Se pelo menos seu bigode tivesse crescido de verdade. Com certeza parecia estar um pouco mais grosso do que ontem.

Ele estava trabalhando de guarda na stadwatch fazia menos de seis semanas, e o trabalho não era nem de longe tão interessante quanto esperava. Imaginou que estaria perseguindo ladrões no Barril ou patrulhando os portos, fazendo as primeiras inspeções em carregamentos que chegavam às docas. Mas desde o assassinato daquele embaixador na prefeitura, o Conselho Me; rcante estava reclamando sobre segurança, então onde ele estava agora? Forçado a dar voltas em torno da casa de algum mercador sortudo. Não era qualquer mercador, no entanto. O conselheiro Hoede ocupava um posto elevado na hierarquia do governo de Ketterdam. O tipo de pessoa que poderia levar sua carreira a outro patamar.

Joost ajustou o caimento de seu casaco e seu rifle, e então deu um tapinha no cassetete reforçado que ficava na cintura. Talvez Hoede notasse e apreciasse seu trabalho. Ele diria Olhos de águia e ágil com sua arma. Aquele rapaz merece uma promoção. “Sargento Joost Van Poel”, ele sussurrou, saboreando o som das palavras. “Capitão Joost Van Poel”.

“Pare de ficar se admirando”.

Joost virou-se rapidamente, as bochechas pegando fogo enquanto Henk e Rutger entravam confiantes no jardim lateral. Ambos eram mais velhos, maiores e com ombros mais largos do que Joost, e eram guardas da casa, criados particulares do Conselheiro Hoede. Isso significava que vestiam seu uniforme verde pálido, carregavam rifles modernos de Novyi Zem e nunca perdiam uma oportunidade de lembrar Joost de que ele era apenas um ninguém da guarda da cidade.

“Acariciar essa penugem não vai fazê-la crescer mais rápido”, Rutger disse, rindo alto.

Joost tentou conjurar um pouco de dignidade. “Preciso terminar minha ronda”.

Rutger cutucou Henk com o cotovelo. “Isso significa que ele vai enfiar a cabeça na oficina Grisha para dar uma olhada na garota dele”.

“Oh, Anya, por favor, use sua mágica Grisha para fazer meu bigode crescer!”, Henk disse, em tom jocoso.

Joost fincou o pé no chão e virou-se, bochechas ardendo, e andou rapidamente pela lateral leste da casa. Eles o sacaneavam desde que havia chegado. Se não fosse por Anya, ele provavelmente teria pedido ao seu capitão que o mudasse de posto. Ele e Anya só tinham trocado algumas palavras em suas rondas, mas ela sempre era a melhor parte da sua noite.

E ele tinha que admitir, ele gostava da casa de Hoede também, o pouco que conseguiu vislumbrar pelas janelas. Hoede tinha uma das mansões mais grandiosas do Geldstraat – pisos com quadrados reluzentes de pedras brancas e negras, paredes de madeira escura polida iluminadas por candelabros de vidro soprado que flutuavam como águas-vivas sob os tetos artesoados. Algumas vezes Joost gostava de fingir que a casa era dele, que ele era um mercador rico passeando pelo seu lindo jardim.

Antes de virar a esquina, Joost respirou profundamente. Anya, seus olhos são castanhos como… casca de árvore? Ele pensaria em algo. Ele era melhor improvisando, de qualquer modo.

Ficou surpreso ao ver as portas com painéis de vidro da oficina Grisha abertas. Mais do que os azulejos azuis pintados à mão da cozinha ou as lareiras repletas de vasos de tulipas, essa oficina era uma prova da riqueza de Hoede. Grishas sob contrato de servidão não eram baratos, e Hoede tinha três deles.

Mas Yuri não estava sentado à longa mesa de trabalho, e não havia sinal algum de Anya. Apenas Retvenko estava lá, esparramado em uma cadeira em robe azul-escuro, olhos fechados, um livro aberto no peito.

Joost parou perto da entrada, e então pigarreou. “Essas portas devem ficar fechadas e trancadas à noite.”

“Esta casa é um forno”, Retvenko resmungou sem abrir os olhos, com forte sotaque ravkano arrastado. “Diga a Hoede que, quando eu parar de suar, eu fecho as portas.”

Retvenko era um Aero, mais velho do que os outros Grishas sob contrato de servidão, seu cabelo permeado com fios prateados. Havia rumores de que tinha lutado pelo lado que perdeu na guerra civil de Ravka, e tinha fugido para Kerch depois do conflito.

“Seria um prazer levar suas reclamações até o Conselheiro Hoede”, Joost mentiu. A casa estava sempre sobreaquecida, como se Hoede tivesse uma cota de carvão para queimar, mas Joost não seria a pessoa a mencionar isso. “Até lá…”

“Você tem notícias de Yuri?”, Retvenko interrompeu, finalmente abrindo os olhos inchados e com olheiras.

Joost olhou rapidamente para as tigelas de uvas vermelhas e pilhas de veludo vermelho escuro na mesa de trabalho. Yuri estava trabalhando no tingimento de cortinas usando a cor da fruta para a Senhora Hoede, mas tinha adoecido gravemente alguns dias atrás, e Joost não o vira desde então. Começava a acumular pó sobre o veludo, e as uvas estavam estragando.

“Não soube de nada.”

“É claro que você não sabe de nada. Ocupado demais desfilando em seu uniforme roxo estúpido.”

O que tinha de errado com seu uniforme? E por que Retvenko estava aqui, afinal? Ele era o Aero particular de Hoede e frequentemente viajava com os carregamentos mais preciosos do mercador, garantindo ventos favoráveis para levar os navios ao porto de forma segura e rápida. Por que ele não poderia estar no mar agora?

“Eu acho que o Yuri pode estar em quarentena.”

“Tão útil”, Retvenko disse sarcasticamente, fazendo uma careta. “Você pode parar de esticar o pescoço como se fosse um ganso esperançoso”, ele completou. “Anya não está mais aqui.”

Joost sentiu seu rosto esquentar novamente. “Onde ela está?”, ele perguntou, tentando soar autoritário. “Ela deveria estar dentro da casa depois do anoitecer.”

“Faz uma hora que Hoede a levou. Igual à noite em que ele veio pegar o Yuri.”

“O que você quer dizer com ‘ele veio pegar o Yuri’? O Yuri ficou doente.”

“Hoede leva Yuri, Yuri volta doente. Dois dias depois, Yuri desaparece de vez. Agora Anya.”

De vez?

“Talvez tenha havido uma emergência. Alguém precisava de cura...”

“Primeiro Yuri, agora Anya. Eu serei o próximo, e ninguém perceberá além do pobrezinho Oficial Joost. Agora você precisa ir embora.”

“Se o Conselheiro Hoede…”

Retvenko levantou um braço e uma lufada de ar empurrou Joost para trás.

Joost se esforçou para manter-se em pé, agarrando-se ao batente da porta.

“Eu disse agora.” Retvenko gesticulou fazendo um círculo no ar, e a porta fechou violentamente. Joost soltou as mãos no último instante para evitar que seus dedos fossem esmagados, e caiu no jardim lateral.

Ele se levantou o mais rápido que pôde, limpando a lama de seu uniforme, a vergonha corroendo-o por dentro. Um dos vidros da porta tinha rachado com o impacto. Através dele, viu o Aero com um sorriso no canto da boca.

“Isso vai ser somado ao seu contrato de servidão”, Joost disse, apontando para o vidro quebrado. Ele odiou o modo como sua voz saiu, tão insignificante e fraca.

Retvenko acenou com a mão, e as portas tremeram nos eixos.

Sem querer, Joost deu um passo para trás.

“Vá cuidar da sua ronda, cãozinho de guarda”, Retvenko gritou.

“Melhor impossível, hein?”, zombou Rutger, encostado na parede do jardim. Há quanto tempo ele estava ali?

“Você não tem coisa melhor para fazer do que ficar me seguindo?”, Joost perguntou.

“Todos os guardas devem se reportar à garagem de barcos. Até você. Ou você está ocupado demais fazendo novos amigos?”

“Eu estava pedindo a ele que trancasse a porta.”

Rutger balançou a cabeça. “Você não pede. Você ordena. Eles são servos, não visitas ilustres.”

Joost seguiu atrás dele, corroendo-se de humilhação por dentro. A pior parte é que Rutger estava certo. Retvenko não podia falar com ele daquele jeito. Mas o que Joost poderia fazer numa hora dessas? Mesmo se tivesse a coragem de brigar com um Aero, seria como lutar com um vaso caro. Os Grishas não eram apenas servos, eram bens preciosos de Hoede.

E o que Retvenko queria dizer com aquela história de Yuri e Anya serem levados embora, afinal? Será que ele estava mentindo para proteger Anya? Grishas sob contrato de servidão eram mantidos dentro de casa por um bom motivo. Andar pelas ruas sem proteção era arriscar ser raptado por um mercador de escravos e nunca mais ser visto. Talvez ela esteja se encontrando com alguém, Joost especulou, miseravelmente.

Seus pensamentos foram interrompidos por um raio de luz e um movimento perto da garagem de barco que dava para o canal. Nas margens ele podia ver outras casas refinadas de mercadores, altas e esguias, as perfeitas arestas de seus telhados desenhando silhuetas escuras no céu noturno, seus jardins e garagens de barco iluminados por lanternas.

Algumas semanas atrás, tinham dito a Joost que iam reformar a garagem de barco de Hoede, e que ele deveria ignorá-la em suas rondas. Mas quando ele e Rutger entraram, não viu tinta nem andaimes. Os goeles e remos tinham sido empurrados contra as paredes. Os outros guardas da casa estavam lá em seus uniformes verde-mar, e Joost reconheceu dois guardas stadwatch em roxo. Mas a maior parte do interior da garagem era tomada por uma grande caixa – uma espécie de cela isolada que parecia ser feita de aço reforçado, suas juntas cheias de rebites, uma enorme janela afixada em uma das suas paredes. O vidro era levemente recurvado, como ondas, e através dele Joost podia enxergar uma garota sentada perto de uma mesa, segurando firmemente sua roupa de seda vermelha ao redor de si. Atrás dela, um guarda da stadwatch permanecia em posição de alerta.

Anya, Joost percebeu com um susto. Seus olhos castanhos estavam arregalados e assustados, sua pele pálida. O garoto sentado à sua frente parecia ainda mais aterrorizado. Seu cabelo estava bagunçado, como se tivesse acabado de acordar, e suas pernas balançavam da cadeira, chutando nervosamente o ar.

“Para que todos esses guardas?”, perguntou Joost. Havia mais de dez deles amontoados naquela garagem. O Conselheiro Hoede estava lá também, junto com um mercador que Joost não conhecia, ambos vestidos de preto-mercante. Joost se endireitou quando viu que estavam conversando com o capitão da guarda da stadwatch. Ele torceu para que tivesse conseguido limpar toda a lama do jardim de seu uniforme. “O que está acontecendo?”

Rutger deu de ombros. “Quem se importa? É uma quebra na rotina.”

Joost voltou a olhar para o vidro. Anya o fitava, um olhar disperso e sem foco. No dia em que tinha chegado à casa de Hoede, ela tinha curado um machucado em sua bochecha. Não era nada, um resquício amarelo-esverdeado de uma pancada que levou no rosto durante um exercício de treinamento, mas aparentemente Hoede tinha percebido o hematoma e não gostava que seus guardas parecessem arruaceiros.

Joost foi enviado à oficina Grisha, e Anya pediu-lhe que sentasse sob um raio brilhante de luz solar daquele fim de inverno. Seus dedos gentis passaram por sua pele e, embora a coceira fosse terrível, alguns segundos depois era como se o machucado nunca tivesse existido.

Ao agradecê-la, Anya sorriu, e esse foi o fim de Joost. Ele sabia que não tinha qualquer chance. Mesmo que ela tivesse algum interesse nele, ele nunca conseguiria comprar sua liberdade de Hoede, e ela nunca poderia se casar a menos que Hoede aprovasse. Mas isso não o tinha impedido de passar para dar um oi ou de levar-lhe pequenos presentes. O presente preferido dela tinha sido um mapa de Kerch, um desenho caprichado da nação-ilha onde moravam, cercada de sereias nadando no Mar Verdadeiro e navios impulsionados por ventos desenhados como homens de bochechas gordas. Era um souvenir barato, do tipo que os turistas compravam na Aduela Leste, mas parecia ter agradado.

Agora ele arriscou levantar a mão, acenando. Anya não esboçou nenhuma reação.

“Ela não pode vê-lo, idiota”, riu Rutger. “O vidro é espelhado do outro lado.”

As bochechas de Joost coraram. “Como eu podia ter adivinhado isso?”

“Experimente abrir os olhos e prestar atenção.”

Primeiro Yuri, agora Anya. “Por que eles precisam de uma Curandeira Grisha? Aquele garoto está ferido?”

“Ele parece estar bem, visto daqui”.

O capitão e Hoede pareciam ter chegado a algum tipo de acordo.

Pelo vidro, Joost viu Hoede entrar na cela e dar uma leve batida no ombro do garoto, para encorajá-lo. Devia ter uns respiradouros na cela, porque ele ouviu Hoede dizer. “Seja um garoto corajoso, e você sairá daqui com alguns kruges.”

Então ele segurou o queixo de Anya com a mão manchada de velhice. Ela ficou tensa, e Joost se retorceu por dentro. Hoede deu uma leve sacudida na cabeça de Anya. “Faça o que mandam e isso logo terminará, ja?”

Ela deu um sorriso forçado. “É claro, Onkle.”

Hoede sussurrou algumas palavras para o guarda atrás de Anya, e então deu um passo para fora da cela. A porta se fechou com um estrondo metálico, e Hoede fechou a tranca pesada.

Hoede e o outro mercador se posicionaram quase diretamente na frente de Joost e Rutger.

O mercador que Joost não conhecia disse: “Você tem certeza de que isso é uma boa ideia? Essa garota é uma Corporalnik. Depois do que aconteceu com o seu Fabricador...”

“Se fosse o Retvenko, eu estaria preocupado. Mas Anya é dócil. Ela é uma Curandeira. Não tem tendências agressivas.”

“E você reduziu a dose?”

“Sim, mas podemos concordar então que, se tivermos os mesmos resultados do Fabricador, o Conselho me recompensará? Não podem pedir que eu arque com esse custo.”

Quando o mercador assentiu com a cabeça, Hoede sinalizou para o capitão. “Prossiga.”

Os mesmos resultados do Fabricador. Retvenko disse que Yuri tinha desaparecido.

Era isso o que ele queria dizer?

“Sargento”, disse o capitão, “o senhor está pronto?”

O guarda dentro da cela respondeu “Sim, senhor” e puxou uma faca.

Joost engoliu em seco.

“Primeiro teste”, disse o capitão.

O guarda se inclinou para a frente e ordenou que o garoto arregaçasse as mangas. Ele obedeceu e esticou o braço, botando o dedão da outra mão na boca. Velho demais para isso, pensou Joost. Mas o garoto devia estar muito assustado. Joost tinha dormido com um urso feito de meia até quase os quatorze anos, algo que seus irmãos mais velhos tinham usado para zombar dele incansavelmente.

“Isso vai doer um pouco”, disse o guarda.

O garoto manteve o dedão na boca e assentiu com a cabeça, olhos arregalados.

“Isso realmente não é necessário...”, disse Anya.

“Quieta, por favor”, disse Hoede.

O guarda deu uma batidinha no ombro do garoto, e então abriu um corte vermelho vibrante no seu antebraço. O garoto começou a chorar instantaneamente.

Anya tentou se levantar da cadeira, mas o guarda colocou uma mão no seu ombro de forma severa.

“Está tudo bem, sargento”, disse Hoede. “Deixe que ela o cure.”

Anya se inclinou para a frente, pegando a mão do garoto de modo gentil. “Shhhh”, ela disse suavemente. “Deixe eu ajudar.”

“Vai doer?”, o garoto perguntou, engolindo em seco.

Ela sorriu. “De modo algum, só vai coçar um pouco. Tente ficar parado, tá?”

Joost se deu conta de que estava se inclinando para ver melhor. Ele nunca tinha realmente visto Anya curar alguém.

Anya tirou um lenço de sua manga e limpou o excesso de sangue. Então seus dedos passaram suavemente sobre a ferida do garoto.

Joost olhou fixamente, espantado, conforme a pele parecia se reconstruir e costurar aos poucos.

Alguns minutos depois, o garoto sorriu e esticou o braço para ver. Parecia um pouco avermelhado, mas estava liso e sem marcas. “Isso foi magia?” Anya tocou delicadamente o nariz dele. “Mais ou menos. A mesma magia que seu próprio corpo faz quando você usa curativos e espera um tempo.”

O garoto parecia quase desapontado.

“Bom, bom”, Hoede disse impacientemente. “Agora a parem.”

Joost franziu a testa. Ele nunca tinha ouvido aquela palavra antes.

O capitão sinalizou para seu sargento. “Segunda sequência.”

“Estique seu braço”, o sargento ordenou ao garoto, mais uma vez.

O garoto balançou a cabeça. “Eu não gosto dessa parte.”

“Agora!”

O lábio inferior do garoto tremeu, mas ele deu o braço. O guarda o cortou mais uma vez. Aí ele colocou um pequeno envelope de papel de cera na mesa na frente de Anya.

“Engula o conteúdo do envelope”, Hoede ordenou a Anya.

“O que é isso?”, ela perguntou com a voz trêmula.

“Isso não é da sua conta.”

“O que é isso?”, ela repetiu.

“Não vai te matar. Vamos pedir que você execute algumas tarefas simples para julgar os efeitos da droga. O sargento está aí para garantir que você faça o que for pedido e nada mais, entendeu?”

Ela contraiu a mandíbula, mas assentiu com a cabeça.

“Ninguém vai te machucar”, disse Hoede. “Mas lembre-se: se você ferir o sargento, não terá como sair desta cela. As portas estão trancadas pelo lado de fora.”

“O que tem naquele envelope?”, sussurrou Joost.

“Não sei”, disse Rutger.

“O que você sabe?”, ele resmungou.

“O suficiente para manter minha boca fechada.”

Joost fez uma careta.

Com as mãos tremendo, Anya levantou o pequeno envelope e abriu sua borda.

“Vá em frente”, disse Hoede.

Ela inclinou a cabeça para trás e engoliu o pó. Por um momento permaneceu sentada, esperando, lábios apertados um contra o outro.

“É jurda?”, ela perguntou esperançosa. Joost também estava torcendo para que fosse.

Jurda não era nada a se temer, um estimulante que todo mundo na stadwatch mastigava para ficar acordado nos turnos da noite.

“Como é o gosto?”, Hoede perguntou.

“Como jurda, mas mais doce, ele...”

Anya inspirou profundamente. Suas mãos seguraram na mesa com força, suas pupilas dilatando tanto que seus olhos pareciam quase negros. “Ohhh”, ela disse, suspirando. Era quase um ronronar.

O guarda segurou seu ombro com mais força.

“Como você se sente?”

Ela só olhou fixamente para o espelho e sorriu. Sua língua apareceu por dentre seus dentes brancos, manchada como por ferrugem. Joost gelou.

“O mesmo que aconteceu com o Fabricador”, murmurou o mercador.

“Cure o garoto”, Hoede ordenou.

Ela acenou com a mão, um gesto quase casual, e o corte no braço do garoto fechou instantaneamente. O sangue levantou-se brevemente de sua pele em gotículas vermelhas e então desapareceu. Sua pele parecia perfeitamente lisa, qualquer marca de sangue ou vermelhidão removida. O garoto sorriu. “Isso com certeza foi magia.”

“A sensação é mágica”, Anya disse com aquele mesmo sorriso inquietante.

“Ela nem encostou nele”, o capitão disse, impressionado.

“Anya”, disse Hoede, “Preste atenção. Vamos dizer ao guarda para começar o próximo teste agora.”

“Mmmm”, Anya murmurou.

“Sargento”, disse Hoede, “Corte o dedão do garoto fora.”

O garoto gritou e começou a chorar novamente, enfiando as mãos entre as pernas para protegê-las.

Eu deveria fazer algo para impedir isso, Joost pensou. Eu deveria achar um modo de protegê-la, de proteger ambos. Mas então o quê? Ele era um ninguém, novo na stadwatch, novo naquela casa. Além do quê, ele se deu conta envergonhado, eu quero manter meu emprego.

Anya simplesmente sorriu e inclinou a cabeça para trás, encarando o sargento. “Atire no vidro.”

“O que foi que ela falou?”, perguntou o mercador.

“Sargento!”, o capitão vociferou.

“Atire no vidro”, Anya repetiu. O rosto do sargento ficou inexpressivo. Ele inclinou a cabeça um pouco para o lado como se estivesse ouvindo alguma música distante, e então sacou seu rifle e apontou-o para a janela de observação.

“Abaixem-se!”, alguém gritou.

Joost se jogou no chão, cobrindo a cabeça enquanto os rápidos estrondos de tiros enchiam seus ouvidos e estilhaços de vidro choviam sobre suas mãos e costas. Seus pensamentos eram um turbilhão em pânico. Sua mente tentou negar, mas ele sabia o que tinha acabado de presenciar. Anya havia ordenado que o sargento atirasse no vidro. Ela o tinha obrigado a fazer aquilo. Mas não era possível. Grishas Corporalki especializavam-se no corpo humano. Eles podiam parar seu coração, reduzir sua respiração, quebrar seus ossos, mas não podiam controlar sua mente.

Por um momento reinou o silêncio. Então Joost estava de pé como todos os outros, pegando seu rifle. Hoede e o capitão gritaram ao mesmo tempo.

“Prendam-na!”

“Atirem nela!”

“Você sabe quanto dinheiro ela vale?”, Hoede replicou. “Alguém a renda! Não atirem!”

Anya levantou as mãos, mangas vermelhas esticadas para os lados. “Esperem”, ela disse.

O pânico de Joost evaporou. Ele sabia que tinha ficado assustado, mas seu medo era um medo distante. Ele estava cheio de expectativas. Ele não tinha certeza do que estava por vir, ou quando, mas sabia que alguma coisa ia acontecer e era essencial que estivesse pronto para ela. Talvez fosse bom, talvez fosse ruim. Ele não se importava, na verdade. Seu coração estava livre de preocupações e desejos. Ele não ansiava por nada, não lhe faltava nada, sua mente vazia, sua respiração estável. Ele só precisava esperar. Observou Anya levantar-se e pegar o garoto. Ouviu-a cantando suavemente para ele alguma canção de ninar de Ravka.

“Abra a porta e entre aqui, Hoede”, ela disse. Joost ouviu as palavras, entendeu-as, e então as esqueceu.

Hoede andou até a porta, tirou a trava e entrou na cela de aço.

“Faça o que mando, e isso logo terminará, ja?”, Anya murmurou com um sorriso. Seus olhos eram poços negros infinitamente profundos. Sua pele estava acesa, brilhante, incandescente. Um pensamento passou rapidamente pela mente de Joost – linda como a lua.

Anya mudou o garoto de posição em seus braços. “Não olhe”, ela murmurou perto de seu ouvido. “Agora”, ela disse a Hoede, “pegue a faca.”





Kaz Brekker não precisava de um motivo. Essas eram as palavras sussurradas nas ruas de Ketterdam, nas tavernas e cafés, nos becos escuros e perigosos do distrito de entretenimento conhecido como Barril. O garoto que chamavam de Mãos Sujas não precisava de um motivo assim como não precisava de permissão – para quebrar uma perna, romper uma aliança ou mudar a sorte de um homem com o virar de uma carta.

É claro que estavam errados, Inej refletiu, cruzando a ponte sobre as águas negras do Beurskanal até a praça central deserta em frente ao Mercado. Todo ato de violência era proposital, e todo favor vinha com entrelinhas suficientes para encher uma enciclopédia. Kaz sempre tinha seus motivos. Inej só não conseguia ter certeza de que eram bons motivos. Especialmente aquela noite.

Inej conferiu suas facas, recitando em voz baixa o nome de cada uma como sempre fazia quando achava que algo ia dar errado. Era um hábito prático, mas um conforto também. As lâminas eram suas companheiras. Ela gostava de saber que elas estariam prontas para qualquer coisa que a noite trouxesse.

Ela viu Kaz e os outros reunidos próximo ao grande arco de pedra que marcava a entrada leste do Mercado. Três palavras tinham sido esculpidas na rocha acima deles: Enjent, Voorhent, Almhent. Indústria, Integridade, Prosperidade.

Ela manteve-se próxima às vitrines cobertas que cercavam a praça, evitando os bolsões de luz de gás tremeluzente dos postes de iluminação. Conforme se movia, fez um inventário mental da equipe que Kaz tinha trazido com ele: Dirix, Rotty, Muzzen e Keeg, Anika e Pim, além dos auxiliares escolhidos para a negociação da noite, Jesper e Big Bolliger. Eles se empurravam e se esbarravam, rindo, pisando com força para afastar o frio inesperado que tinha pegado a cidade de surpresa naquela semana, o último suspiro de inverno antes de a primavera começar de verdade.

Eram todos brutamontes, bons de luta, selecionados entre os membros mais jovens dos Dregs, as pessoas em quem Kaz mais confiava. Inej notou o brilho refletido de facas presas em seus cintos, canos de chumbo, correntes reforçadas, cabos de machado cravados com pregos enferrujados, e aqui e ali o brilho oleoso do cano de uma arma. Ela deslizou discretamente para dentro do grupo, vasculhando as sombras perto do Mercado em busca de sinais dos espiões da Ponta Negra.

“Três navios!”, Jesper estava dizendo. “Os Shu os enviaram. Eles estavam parados no Primeiro Porto, canhões em destaque, bandeiras vermelhas hasteadas, todos decorados em dourado.”

Big Bolliger deu um assovio baixo. “Gostaria de ter visto isso.”

“Gostaria de ter roubado isso”, replicou Jesper. “Metade do Conselho Mercante estava lá em polvorosa, tentando decidir o que fazer.”

“Eles não querem que os Shu paguem suas dívidas?”, perguntou Big Bolliger. Kaz balançou a cabeça, os cabelos escuros cintilando na luz da lamparina. Ele era uma coleção de linhas duras e traços definidos – mandíbula retilínea, corpo esguio, casaco de lã confortável sobre os ombros.

“Sim e não”, disse ele com sua rouquidão. “É sempre bom ter um país em dívida com você. Deixa as negociações mais amigáveis.”

“Talvez os Shu estejam cansados de ser amigáveis”, disse Jesper. “Eles não precisam mandar todo o tesouro de uma vez. Acha que estão mantendo o embaixador comercial em cativeiro?”

Os olhos de Kaz encontraram Inej infalivelmente na multidão. Ketterdam vinha fofocando sobre o assassinato do embaixador por semanas. Isso tinha praticamente destruído as relações entre os kerches e os zemenis e tumultuado o Conselho Mercante. Os zemenis culpavam os kerches. Os kerches suspeitavam dos Shu.

Kaz não se importava em saber quem era o responsável; o assassinato o fascinava porque ele não conseguia entender como havia acontecido. Em um dos corredores mais movimentados do Stadhall, diante de mais de uma dúzia de oficiais do governo, o embaixador comercial zemeni tinha entrado em um banheiro. Ninguém mais havia entrado ou saído. Poucos minutos depois, o seu assistente bateu à porta, mas não houve resposta. Quando arrombaram a porta, encontraram o embaixador de cara nos azulejos brancos, uma faca em suas costas, a torneira da pia ainda aberta.

Kaz tinha enviado Inej para investigar as instalações no fim do expediente. O banheiro não tinha outra entrada, nenhuma janela ou ventilação, e nem mesmo Inej tinha dominado a arte de se espremer pelo encanamento. Ainda assim o embaixador zemeni estava morto. Kaz odiava um enigma que não conseguia resolver, e ele e Inej tinham formulado centenas de teorias para solucionar o assassinato – nenhuma satisfatória. Mas eles tinham problemas mais urgentes aquela noite.

Ela o viu sinalizar para Jesper e Big Bolliger se livrarem das armas. A lei da rua ditava que, para uma negociata desse tipo, cada tenente fosse acompanhado por dois soldados rasos e que todos estivessem desarmados. Negociata. A palavra soava como uma trapaça – estranhamente cerimoniosa, antiquada. Não importa o que a lei da rua decretasse, aquela noite cheirava a violência.

“Vá em frente, deixe as armas”, Dirix disse a Jesper.

Com um grande suspiro, Jesper removeu os coldres de seus quadris. Inej tinha de admitir que sem eles Jesper perdia um pouco de sua identidade. O atirador de elite zemeni tinha braços e pernas compridos, a pele escura, e estava constantemente em movimento. Ele pressionou seus lábios contra os punhos perolados de seus estimados revólveres, dando um beijo pesaroso em cada um.

“Tome conta dos meus bebês”, disse Jesper enquanto os passava para Dirix. “Se eu vir um único arranhão ou marca neles, escreverei me desculpe em seu peito com buracos de bala.”

“Você não desperdiçaria munição.”

“E ele já estaria morto no meio do desculpe”, disse Big Bolliger enquanto soltava uma machadinha, um canivete e sua arma preferida – uma corrente grossa com um pesado cadeado – nas mãos ansiosas de Rotty.

Jesper revirou os olhos. “Trata-se de enviar uma mensagem. Qual o sentido de um sujeito morto com me desc escrito no peito?”

“Um meio-termo”, disse Kaz. “Perdão dá o recado e usa menos balas.”

Dirix riu, mas Inej notou que ele manuseou os revólveres de Jesper com muita cautela.

“E quanto a isso?”, perguntou Jesper, apontando para a bengala de Kaz. A risada dele foi baixa e sem graça.

“Quem negaria uma bengala a um aleijado?”

“Se o aleijado for você, qualquer homem de bom senso.”

“Então, ainda bem que vamos encontrar Geels.” Kaz tirou um relógio do bolso de seu colete. “É quase meia-noite.”

Inej olhou para o Mercado. Era praticamente um grande quarteirão retangular cercado de armazéns e escritórios de transporte.

Durante o dia, contudo, ele era o coração de Ketterdam, fervilhando de mercadores ricos comprando e vendendo participações nas viagens comerciais que passavam pelos portos da cidade. Agora já estavam quase para soar as doze badaladas, e o Mercado estava praticamente deserto, exceto pelos guardas que patrulhavam o perímetro e os telhados. Eles haviam sido subornados para “não verem” a negociata daquela noite.

O Mercado era uma das poucas partes restantes da cidade que não tinham sido divididas e reclamadas no conflito incessante entre as gangues rivais de Ketterdam. Ele devia ser um território neutro. Mas não parecia neutro para Inej. Era como o sussurrar dos bosques antes de o laço apertar e o coelho começar a gritar. Parecia uma armadilha.

“Isso é um equívoco”, disse ela. Big Bolliger se assustou; ele não sabia que ela estava lá de pé. Inej ouviu o nome que os Dregs usavam para ela, sussurrado entre o bando – a Espectro. “Geels está aprontando alguma.”

“É claro que ele está”, disse Kaz. Sua voz tinha a textura áspera e desgastada de pedra contra pedra. Inej sempre se perguntava se ele tinha essa voz quando criança. Se é que ele algum dia tinha sido criança.

“Então por que vir aqui hoje à noite?”

“Porque é assim que o Per Haskell deseja.”

Velho homem, velhos hábitos, Inej pensou, mas não disse, e ela suspeitava que os outros Dregs estavam pensando a mesma coisa. “Vamos acabar morrendo todos por culpa dele”, disse ela.

Jesper esticou seus longos braços sobre a cabeça e sorriu, os dentes brancos contrastando com a pele escura. Ele não tinha entregado ainda seu rifle, e sua silhueta de costas o fazia parecer um pássaro desajeitado de pernas compridas.

“Estatisticamente, ele provavelmente só matará alguns de nós.”

“Não é motivo para brincadeira”, Inej respondeu. Kaz olhou para ela com uma expressão de divertimento. Ela sabia como soava – severa, detalhista, como uma velha fazendo profecias sombrias na sua varanda. Ela não gostava disso, mas também sabia que estava certa. Além do que, velhinhas deviam entender das coisas, senão não teriam sobrevivido para ficarem enrugadas e gritar dos seus degraus.

“Jesper não está brincando, Inej”, disse Kaz. “Está avaliando as possibilidades.” Big Bolliger estalou as juntas de seus grandes dedos. “Bem, eu tenho cerveja e uma frigideira de ovos me esperando no Kooperom, então não serei eu a morrer esta noite.”

“Quer apostar?”, perguntou Jesper.

“Não apostarei na minha própria morte.”

Kaz colocou o chapéu na cabeça e percorreu sua borda com os dedos enluvados num rápido cumprimento. “Por que não, Bolliger? Nós fazemos isso todos os dias.”

Ele estava certo. A dívida de Inej com Per Haskell significava que ela havia apostado sua vida cada vez que assumia um novo trabalho ou tarefa, cada vez que deixava seu quarto na Ripa. Aquela noite não era diferente.

Kaz bateu a bengala contra os paralelepípedos quando os sinos da Igreja de Barter começaram a soar. O grupo ficou em silêncio. O tempo para a conversa havia terminado.

“Geels não é inteligente, mas é esperto o suficiente para causar problemas”, disse Kaz. “Não importa o que ouvirem, vocês não devem partir para a briga a menos que eu dê a ordem. Fiquem atentos.” Então ele acenou brevemente para Inej. “E fique escondida.”

“Sem luto”, disse Jesper enquanto jogava seu rifle para Rotty.

“Sem funerais”, o resto dos Dregs murmurou em resposta. Entre eles, era o equivalente a “boa sorte”.

Antes de Inej desaparecer nas sombras, Kaz cutucou seu braço com a bengala, em cuja extremidade havia esculpida a cabeça de um corvo. “Fique de olho nos guardas do telhado. Geels pode tê-los subornado.”

“Então…”, Inej começou, mas Kaz já tinha ido embora.

Inej ergueu as mãos frustrada. Tinha uma centena de perguntas, mas, como de costume, Kaz estava segurando as respostas. Ela correu na direção do muro do Mercado que dava para o canal. Apenas os tenentes e seus auxiliares foram autorizados a entrar durante a negociata. Mas, caso os Pontas Negras tentassem alguma coisa, os outros Dregs estariam esperando do lado de fora do arco oriental com armas em punho. Ela sabia que Geels teria sua tripulação fortemente armada de Pontas Negras reunida na entrada ocidental.

Inej iria encontrar seu próprio jeito de entrar. As regras de jogo limpo entre as gangues eram da época de Per Haskell. Além disso, ela era a Espectro – a única lei que se aplicava a ela era a da gravidade, a qual ela às vezes desafiava também.

O nível mais baixo do Mercado era dedicado aos armazéns sem janelas, então Inej localizou um cano de esgoto para escalar. Algo a fez hesitar antes de passar a mão em torno dele. Ela tirou um luminosso do bolso e o sacudiu, lançando um brilho verde pálido sobre o cano. Ele estava escorregadio de óleo. Ela verificou a parede, procurando outra opção, e encontrou dentro do alcance uma cornija de pedra sustentando uma estátua de três peixes voadores kerches. Ficou na ponta dos pés e tateou ao longo da parte superior da cornija. Ela tinha sido coberta com vidro moído. Estão esperando por mim, pensou com um prazer mórbido.

Ela havia se juntado aos Dregs menos de dois anos atrás, apenas alguns dias depois de seu décimo quinto aniversário. Tinha sido uma questão de sobrevivência, mas ficava satisfeita em saber que, em tão pouco tempo, já havia quem tomasse precauções contra ela. Porém, se os Pontas Negras pensavam que truques como aquele iriam manter a Espectro longe de seu objetivo, eles estavam redondamente enganados.

Ela sacou dois ganchos de escalada dos bolsos de seu colete acolchoado e fincou, primeiro um e depois o outro, entre os tijolos da parede enquanto se içava, seus pés precavidos encontrando os menores desníveis e cumes na pedra. Quando criança, tinha aprendido a andar na corda bamba descalça. Mas as ruas de Ketterdam eram muito frias e úmidas para isso. Depois de alguns escorregões ruins, pagou um Grisha fabricador, que trabalhava em segredo para uma loja de gim no Wijnstraat, para que lhe fizesse um par de sapatilhas de couro com sola de borracha em camadas. Elas se adequavam perfeitamente aos seus pés e aderiam a qualquer superfície com firmeza.

No segundo andar do Mercado, ergueu-se sobre o parapeito de uma janela apenas o suficiente para se empoleirar.

Kaz tinha se esforçado ao máximo para ensiná-la, mas ela não tinha seu dom para invasões, e precisou de algumas tentativas para vencer a fechadura. Finalmente, ela ouviu um clique satisfatório, e a janela se abriu para um escritório vazio, as paredes cobertas de mapas marcados com rotas comerciais e quadros-negros listando os preços das ações e os nomes dos navios. Ela se agachou para entrar, fixou o trinco e seguiu seu caminho pelas mesas vazias com suas pilhas bem arrumadas de encomendas e registros de contas.

Atravessou um conjunto delgado de portas e entrou em uma varanda com vista para o pátio central do Mercado. Cada um dos escritórios de transporte tinha uma. Delas, anunciantes avisavam de novas viagens e chegadas de inventários, ou penduravam a bandeira negra que indicava que um navio tinha sido perdido no mar com toda a sua carga. O chão do Mercado iria irromper em uma enxurrada de negociações, mensageiros iriam espalhar a palavra por toda a cidade, e o preço de mercadorias, bens futuros e ações em viagens por vir iriam subir ou cair. Mas naquela noite só havia silêncio.

Um vento veio do porto, trazendo o cheiro do mar, bagunçando os fios de cabelo que haviam escapado de seu coque. Lá embaixo na praça, viu o bruxulear da lamparina e ouviu o baque da bengala de Kaz sobre as pedras enquanto ele e seus auxiliares atravessavam a praça. No lado oposto, vislumbrou outro conjunto de lanternas indo na direção deles. Os Pontas Negras tinham chegado.

Inej ergueu seu capuz. Impulsionou-se para o corrimão e saltou silenciosamente na varanda vizinha, e então na próxima, acompanhando Kaz e os outros ao redor da praça, ficando o mais próximo possível. Seu casaco escuro ondulava na brisa salgada, seu andar manco mais pronunciado aquela noite, como sempre acontecia quando o tempo esfriava. Ela podia ouvir Jesper tentando manter um ritmo animado de conversa, e a risada baixa e retumbante de Big Bolliger.

Enquanto se aproximava do outro lado da praça, Inej viu que Geels tinha escolhido trazer Elzinger e Oomen, exatamente como ela havia previsto. Inej conhecia os pontos fortes e fracos de cada membro dos Pontas Negras, sem falar dos Pointers do Harley, os Liddies, os Gaivotas Navalha, os Leoneiros, e todas as outras gangues trabalhando nas ruas de Ketterdam. Era seu trabalho saber que Geels confiava em Elzinger porque eles haviam subido juntos na hierarquia dos Pontas Negras, e porque Elzinger tinha a constituição de uma pilha de pedregulhos – quase sete pés de altura, com musculatura densa, seu rosto largo e amassado se encaixando em um pescoço grosso como um pilão.

Ela ficou subitamente contente com o fato de Big Bolliger estar com Kaz. Kaz ter escolhido Jesper para ser um de seus auxiliares não foi nenhuma surpresa. Apesar de nervosinho, a verdade é que Jesper, com ou sem seus revólveres, havia nascido para uma briga, e ela sabia que ele faria qualquer coisa por Kaz. Sua certeza tinha sido menor quando Kaz insistiu em levar Big Bolliger também. Big Bol era um segurança no Clube do Corvo, perfeitamente adequado para jogar bêbados e baderneiros no olho da rua, mas muito desajeitado para ser útil em uma luta de verdade. Ainda assim, pelo menos ele era alto o suficiente para olhar Elzinger no olho.

Inej não queria pensar muito no outro auxiliar de Geels. Oomen a deixava nervosa. Ele não era tão fisicamente intimidador quanto Elzinger. Na verdade, Oomen parecia um espantalho – não do tipo magricela, mas como se, debaixo de suas roupas, seu corpo tivesse sido conectado nos ângulos errados. Corria a história de que uma vez ele esmagou o crânio de um homem com as próprias mãos, limpou-as na camisa e continuou bebendo. Inej tentou acalmar a inquietação que a percorria, e parou para ouvir Geels e Kaz conversarem na praça enquanto os auxiliares revistavam-se para se certificarem de que ninguém estava armado.

“Danadinho”, disse Jesper enquanto tirava uma pequena faca da manga de Elzinger e a arremessava do outro lado da praça.

“Limpo”, declarou Big Bolliger ao terminar de revistar Geels, passando para Oomen.

Kaz e Geels discutiam o clima, a suspeita de que o Kooperom estava servindo bebidas misturadas com água, agora que o aluguel tinha aumentado – dançando em torno da verdadeira razão de estarem ali naquela noite. Na teoria, iriam conversar, fazer seus pedidos de desculpas, concordar em respeitar as fronteiras do Porto 5, então, em seguida, todos sairiam para beber juntos, pelo menos Per Haskell tinha insistido nisso.

Mas o que Per Haskell sabe? Inej pensou enquanto olhava para os guardas patrulhando o telhado acima, tentando distinguir suas formas no escuro. Haskell comandava os Dregs, mas atualmente preferia se sentar no calor de sua sala, beber cerveja morna, construir modelos de navios e contar longas histórias sobre suas façanhas para quem quisesse ouvir. Ele parecia pensar que guerras por território podiam ser resolvidas à moda antiga: com uma briga rápida e um aperto de mão amigável. Mas cada um dos sentidos de Inej dizia que não era assim que a coisa se daria. Seu pai teria dito que as sombras tinham sua própria agenda aquela noite. Algo ruim iria acontecer ali.

Kaz tinha as duas mãos enluvadas descansando sobre a cabeça de corvo esculpida em sua bengala. Ele parecia totalmente à vontade, o rosto estreito obscurecido pela aba do chapéu. A maioria dos membros de gangues no Barril amava ostentação: coletes berrantes, correntes de relógios cravejadas de pedras preciosas falsas, calças de todo tipo de marca e modelo que se possa imaginar. Kaz era a exceção – um modelo de discrição, seus coletes e calças escuras com cortes simples e costurados ao longo de linhas severas. A princípio, ela pensou que era uma questão de gosto, mas logo entendeu que era uma piada com os mercadores renomados. Ele gostava de se parecer com um deles.

“Eu sou um homem de negócios”, ele disse a ela. “Nem mais, nem menos.”

“Você é um ladrão, Kaz.”

“Não foi isso que acabei de falar?”

Agora ele parecia algum tipo de padre que tinha vindo para pregar a um grupo de artistas de circo. Um jovem sacerdote, ela pensou com outra pontada de inquietação. Kaz tinha chamado Geels de velho e ultrapassado, mas ele certamente não parecia se encaixar nessa descrição aquela noite. O tenente dos Pontas Negras podia ter rugas vincando os cantos dos olhos e uma papada em franco crescimento sob suas costeletas, mas ele parecia confiante, experiente. Perto dele, Kaz parecia... Bem, ter dezessete anos.

“Sejamos honestos, ja? Só queremos um pouco mais de grana”, disse Geels, tocando nos botões espelhados do colete verde-claro. “Não é justo que você pegue todos os turistas gastadores felizes que desembarcam no Porto 5.”

“O Porto 5 é nosso, Geels”, Kaz respondeu. “Os Dregs têm prioridade para pegar os tolos que vêm à procura de um pouco de diversão no Porto 5.”

Geels balançou a cabeça. “Você é novo, Brekker”, disse ele com uma risada indulgente. “Talvez você não entenda como as coisas funcionam. Os portos pertencem à cidade, e temos tanto direito a eles quanto qualquer um. Nós todos temos que nos sustentar.”

Tecnicamente, isso era verdade. Mas o Porto 5 tinha sido inútil e totalmente abandonado pela cidade quando Kaz assumiu seu controle. Ele mandou dragarem a área e, em seguida, construiu as docas e o cais, e ele teve que hipotecar o Clube do Corvo para fazer tudo isso. Per Haskell o criticou e o chamou de tolo pelo gasto, mas acabou cedendo. De acordo com Kaz, as palavras exatas do velho tinham sido: “Pegue toda essa corda e se enforque.”

Mas o esforço tinha dado retorno em menos de um ano. Agora o Porto 5 oferecia ancoradouro para navios mercantes e para barcos de todo o mundo transportando turistas e soldados ansiosos para ver os pontos turísticos e experimentar os prazeres de Ketterdam. Os Dregs tinham direito de abordá-los primeiro, conduzindo-os – e suas carteiras – aos bordéis, bares e casas de jogos de propriedade da gangue. O Porto 5 tinha feito o velho muito rico, e firmado os Dregs como parte relevante do Barril de uma forma que nem mesmo o sucesso do Clube do Corvo tinha conseguido. Mas com o lucro veio a atenção indesejada. Geels e os Pontas Negras tinham arrumado problema para os Dregs o ano inteiro, invadindo o Porto 5, aproveitando-se de vítimas que não eram deles por direito.

“O Porto 5 é nosso”, Kaz repetiu. “Ele não está em negociação. Você está atrapalhando nosso fluxo nas docas e interceptou um carregamento de jurda que deveria ter entrado duas noites atrás.”

“Não sei do que está falando.”

“Eu sei que é natural para você, Geels, mas não tente bancar o idiota comigo.”

Geels deu um passo à frente. Jesper e Big Bolliger ficaram tensos.

“Relaxe, garoto”, disse Geels. “Todos nós sabemos que o velho aqui não tem estômago para uma briga de verdade.”

A risada de Kaz veio seca como o farfalhar de folhas mortas. “Mas eu sou o único sentado à sua mesa, Geels, e não estou aqui para um aperitivo. Se quer uma guerra, vou te servir um prato cheio.”

“E se você não estiver mais aqui, Brekker? Todo mundo sabe que é a espinha dorsal da operação de Haskell – basta arrancá-la e os Dregs caem.”

Jesper bufou. “Estômago, coluna vertebral. Qual é o próximo, baço?”

“Cale a boca”, Oomen rosnou. As regras da negociata determinavam que apenas os tenentes poderiam falar após o início das negociações. Jesper soltou um “me desculpe” e fez uma careta cerrando os lábios.

“Eu acho que está me ameaçando, Geels”, disse Kaz. “Mas quero ter certeza antes de decidir o que fazer a respeito.”

“Seguro de si mesmo, não é, Brekker?”

“De mim e de mais nada.”

Geels desatou a rir e deu uma cotovelada em Oomen. “Escute só este pequeno pedaço de merda arrogante. Brekker, você não é dono dessas ruas. Garotos como você são pulgas. Uma nova safra de gente como você aparece de tempos em tempos para irritar seus superiores até que o cão líder da matilha decida se coçar. E deixe-me dizer uma coisa, estou me cansando dessa coceira.” Ele cruzou os braços, o prazer emanando dele em ondas de presunção. “E se eu dissesse que há dois guardas com rifles da cidade apontados para você e para seus garotos agora?”

Inej sentiu um nó no estômago. Foi isso que Kaz quis dizer quando comentou que Geels poderia ter subornado os guardas?

Kaz olhou para o telhado. “Contratando guardas da cidade para fazer seu serviço sujo? Diria que é uma aposta cara para uma gangue como os Pontas Negras. Não sei se acredito que seus cofres poderiam bancar isso.”

Inej subiu no parapeito e se lançou da segurança da varanda para o telhado. Se eles sobrevivessem àquela noite, ela mataria Kaz.

Havia sempre dois guardas da stadwatch a postos no telhado do Mercado. Alguns kruges dos Dregs e dos Pontas Negras tinham garantido que eles não iriam interferir na negociata, uma operação bastante comum. Mas Geels estava dando a entender algo muito diferente. Ele realmente tinha conseguido subornar os guardas da cidade para bancar os atiradores para ele? Se sim, as chances de os Dregs sobreviverem àquela noite agora eram mínimas.

Assim como a maioria dos edifícios em Ketterdam, o Mercado possuía um telhado com frontão pontudo para protegê-lo contra a chuva, de modo que os guardas patrulhavam o telhado por uma passagem estreita que dava para o pátio. Inej ignorou esse caminho. Seria mais fácil de passar, mas a deixaria muito exposta. Em vez disso, escalou até a metade das telhas escorregadias e começou a rastejar, seu corpo inclinado em um ângulo precário, movendo-se como uma aranha enquanto mantinha um olho na passagem dos guardas e um ouvido na conversa abaixo. Talvez Geels estivesse blefando.

Ou talvez dois guardas estivessem curvados sobre a balaustrada agora mesmo, com Kaz, Jesper ou Big Bolliger em sua mira.

“Deu algum trabalho”, Geels admitiu. “Somos uma operação pequena agora, e guardas da cidade não são baratos. Mas vai valer o prêmio.”

“Que sou eu?”

“Que é você.”

“Fico lisonjeado.”

“Os Dregs não vão durar uma semana sem você.”

“Eu lhes daria um mês de puro impulso.”

O pensamento aturdiu ruidosamente a cabeça de Inej. Se Kaz partisse, eu ficaria? Ou fugiria da minha dívida? Arriscaria ser caçada pelos capangas de Per Haskell? Se não se movesse mais rápido, provavelmente acabaria descobrindo.

“Seu pequeno rato presunçoso.” Geels riu. “Mal posso esperar para arrancar essa expressão da sua cara.”

“Então faça isso”, disse Kaz. Inej arriscou uma olhada para baixo. A voz dele tinha mudado, todo o humor desapareceu.

“Devo pedir que cravem uma bala na sua perna boa, Brekker?”

Onde estão os guardas? Inej pensou, acelerando o ritmo. Ela correu pela área íngreme do frontão. O mercado se alongava quase pelo comprimento de uma quadra. Havia muito território para cobrir.

“Pare de falar, Geels. Diga a eles para atirar.”

“Kaz...”, disse Jesper, nervoso.

“Vá em frente. Seja homem e dê a ordem.”

Que jogo Kaz estava jogando? Ele já esperava por isso? Ele havia acabado de assumir que Inej alcançaria os guardas em tempo?

Ela olhou para baixo novamente. Geels irradiava ansiedade. Ele respirou fundo, estufando o peito. Inej se atrapalhou com os passos e precisou lutar para não escorregar direto pela beira do telhado. Ele vai mesmo fazer isso. Vou assistir ao Kaz morrer.

“Fogo!”, Geels gritou.

Um tiro cortou o ar. Big Bolliger soltou um grito e caiu no chão.

“Droga!”, gritou Jesper, caindo com um joelho ao lado de Bolliger e pressionando a mão no ferimento à bala enquanto o grandalhão gemia.

“Seu brucutu inútil!”, ele gritou para Geels. “Acabou de violar o território neutro.”

“Vou dizer que você atirou primeiro”, Geels respondeu. “E ninguém saberá que isso não é verdade. Nenhum de vocês sairá vivo daqui.”

A voz de Geels soou estridente demais. Ele estava tentando manter a calma, mas Inej podia ouvir pânico pulsando em suas palavras, o bater de asas de um pássaro assustado. Por quê? Momentos antes ele era pura bravata.

Foi quando Inej viu que Kaz ainda não havia se movido. “Você não parece bem, Geels.”

“Estou tranquilo”, ele disse. Mas não estava. Parecia pálido e trêmulo. Seus olhos iam da direita para a esquerda como se procurassem a passagem sombreada do telhado.

“Está mesmo?”, perguntou Kaz num tom de conversa casual. “As coisas não estão saindo exatamente conforme o planejado, estão?”

“Kaz”, disse Jesper. “Bolliger está sangrando muito.”

“Ótimo”, disse Kaz.

“Ele precisa de um medik!”

Kaz deu ao homem ferido uma brevíssima olhada de relance. “O que ele precisa é parar de resmungar e ficar feliz por eu não ter mandado Holst derrubá-lo com um tiro na cabeça.”

Mesmo de cima, Inej viu Geels vacilar.

“Esse é o nome do guarda, não é?”, perguntou Kaz. “Willem Holst e Bert Van Daal – os dois guardas da cidade de plantão esta noite. Os que você subornou esvaziando os cofres dos Pontas Negras?”

Geels não disse nada.

“Willem Holst”, Kaz disse alto, sua voz flutuando até o telhado, “gosta de apostar quase tanto quanto Jesper, então seu dinheiro teve bastante apelo. Mas Holst tem problemas muito maiores – vamos chamá-los de impulsos secretos. Eu não vou entrar em detalhes. Um segredo não é como moeda. Ele não mantém seu valor se você o gasta. Basta confiar em mim quando digo que esse reviraria até o seu estômago. Não é verdade, Holst?”

A resposta foi um outro tiro, que atingiu os paralelepípedos perto dos pés de Geels. Ele soltou um grito de espanto e saltou para trás. Dessa vez Inej teve uma chance melhor de rastrear a origem do disparo.

O tiro tinha vindo de algum lugar perto da face oeste do edifício. Se Holst estava lá, isso significava que o outro guarda – Bert Van Daal – estaria na face leste. Será que Kaz tinha conseguido neutralizá-lo também? Ou ele estava contando com ela? Ela acelerou ao longo dos frontões.

“Atire nele de uma vez, Holst!”, berrou Geels, desespero marcando sua voz. “Atire na cabeça dele!”

Kaz bufou em desgosto. “Você realmente acha que o segredo morreria comigo? Vá em frente, Holst”, ele gritou. “Ponha uma bala na minha cabeça. Haverá mensageiros correndo para a porta da sua esposa e do seu capitão da guarda antes de eu atingir o chão.”

Nenhum tiro foi disparado.

“Como?”, disse Geels amargamente. “Como sabia até quem estaria de vigília esta noite? Eu tive que gastar muito dinheiro só para conseguir essa lista. Não tinha como você ter coberto meu lance.”

“Digamos que minha moeda tem mais influência.”

“Dinheiro é dinheiro.”

“Eu negocio informações, Geels, as coisas que os homens fazem quando pensam que ninguém está olhando. A vergonha tem mais valor do que as moedas podem ter.”

Ele estava fazendo seu teatro, Inej sabia disso, ganhando tempo para que ela pudesse saltar sobre as telhas.

“Está preocupado com o segundo guarda? O bom e velho Bert Van Daal?”, perguntou Kaz. “Talvez ele esteja lá em cima agora, imaginando o que deve fazer. Atirar em mim? Atirar no Holst? Ou talvez eu o tenha comprado também, e ele esteja se preparando para abrir um buraco no seu peito, Geels.” Ele se inclinou como se ele e Geels estivessem compartilhando um grande segredo. “Por que não dar a ordem a Van Daal e descobrir?”

Geels abriu e fechou a boca como uma carpa, então gritou, “Van Daal!”.

Assim que Van Daal entreabriu os lábios para responder, Inej deslizou por trás dele e colocou uma lâmina em sua garganta. Ela mal teve tempo de identificar sua sombra e deslizar pelas telhas. Pelos Santos, Kaz gostava de viver perigosamente.

“Shhhh”, sussurrou no ouvido de Van Daal. Ela o cutucou levemente no flanco para que ele pudesse sentir a ponta de sua segunda adaga pressionada contra o rim.

“Por favor”, ele gemeu. “Eu...”

“Eu gosto quando os homens imploram”, disse ela. “Mas não é hora para isso.”

Lá embaixo, ela podia ver o peito de Geels subindo e descendo enquanto ele respirava em pânico. “Van Daal!”, ele gritou de novo. Havia raiva em seu rosto quando ele se virou para Kaz. “Sempre um passo à frente, não é?”

“Geels, quando se trata de você, diria que eu tenho uma dianteira.”

Mas Geels apenas sorriu – um pequeno sorriso, fechado e satisfeito. Um sorriso de vitória, Inej notou com uma nova onda de medo.

“A corrida ainda não acabou.” Geels enfiou a mão no casaco e tirou uma pistola preta pesada.

“Finalmente”, disse Kaz. “A grande revelação. Agora Jesper pode parar de se ajoelhar sobre Bolliger como uma mulherzinha com os olhos marejados.”

Jesper olhou para a arma com olhos furiosos e atordoados. “Bolliger o revistou. Ele... Oh, Big Bol, seu idiota”, ele disse, em lamentação.

Inej não podia acreditar no que via. O guarda em seus braços soltou um pequeno guincho. Em sua raiva e surpresa, ela acidentalmente tinha apertado com mais força. “Relaxe”, disse ela, afrouxando a pegada. Mas, por todos os Santos, ela queria enfiar uma faca em alguma coisa. Big Bolliger tinha sido o responsável por revistar Geels. Não tinha como não ter notado a pistola. Ele os havia traído.

Foi por isso que Kaz insistiu em trazer Big Bolliger esta noite, para ele ter a confirmação pública de que Bolliger tinha passado para o lado dos Pontas Negras? Certamente foi por isso que ele deixou Holst meter uma bala no intestino de Bolliger. Mas e aí? Agora todos sabiam que Big Bol era um traidor. Kaz ainda tinha uma arma apontada para seu peito.

Geels sorriu. “Kaz Brekker, o grande artista da fuga. Como irá se safar desta?”

“Saindo da mesma forma que entrei.” Kaz ignorou a pistola, voltando sua atenção para o grandalhão deitado no chão. “Sabe qual o seu problema, Bolliger?” Ele cutucou a ferida no estômago de Big Bol com a ponta da bengala. “Isso não foi uma pergunta retórica. Sabe qual é seu maior problema?”

Bolliger choramingou. “Nããão...”

“Arrisque um palpite”, Kaz assobiou.

Big Bol não disse nada, apenas soltou mais um gemido trêmulo.

“Tudo bem, vou te dizer. Você é preguiçoso. Eu sei isso. Todo mundo sabe disso. Então, tive de me perguntar por que meu segurança mais preguiçoso estava se levantando cedo duas vezes por semana para caminhar duas milhas extras para tomar café na Fritada do Cilla, especialmente quando os ovos são muito melhores no Kooperom. Big Bol se transforma em um madrugador, os Pontas Negras começam a marcar presença em torno do Porto 5 e, logo depois, interceptam nossa maior remessa de jurda. Não foi uma conexão difícil de fazer.” Ele suspirou e disse para Geels: “É isso que acontece quando pessoas estúpidas começam a fazer planos elaborados, ja?”

“Isso não importa muito agora, não é?”, respondeu Geels. “Isso vai ficar feio, estou disparando à queima-roupa. Talvez seus guardas acertem em mim ou em meus homens, mas não tem jeito de você se esquivar dessa bala.”

Kaz se aproximou do cano da arma de modo que ele ficasse pressionado diretamente contra seu peito.

“De jeito nenhum, Geels.”

“Você acha que não vou fazer isso?”

“Oh, acho que faria de bom grado, com uma canção em seu coração negro. Mas você não irá. Não esta noite.”

O dedo de Geels tremia no gatilho.

“Kaz”, disse Jesper. “Essa coisa de atire em mim está começando a me preocupar.”

Oomen não se deu ao trabalho de mandar Jesper calar a boca dessa vez. Um homem havia sido baleado. O território neutro tinha sido violado. O cheiro forte de pólvora já pairava no ar – e junto com ele uma pergunta, implícita no silêncio, como se a própria Ceifadora esperasse a resposta: Quanto sangue será derramado esta noite?

Ao longe, uma sirene soou.

“Burstraat 19”, disse Kaz.

Geels estava mudando seu peso de um pé para outro até então; agora ele estava parado.

“Esse é o endereço da sua garota, não é, Geels?”

Geels engoliu em seco. “Não tenho nenhuma garota.”

“Ah, tem sim”, cantarolou Kaz. “Ela é bonita também. Bem, bonita o suficiente para uma criatura desagradável como você. Parece doce. Você a ama, não é?” Mesmo do telhado, Inej podia ver o brilho de suor no rosto de cera de Geels. “Claro que ama. Ninguém tão agradável deveria ter dado atenção para uma escória do Barril como você, mas ela é diferente. Ela te acha encantador. Claro sinal de loucura, se quiser saber minha opinião, mas o amor é estranho assim mesmo. Ela gosta de descansar sua bela cabeça no seu ombro? De ouvir você contar sobre o seu dia?”

Geels olhou para Kaz como se finalmente o estivesse vendo pela primeira vez. O menino com quem vinha falando era arrogante, imprudente, se divertia facilmente, mas não era assustador – não realmente. Agora o monstro estava aqui, olhar vazio e sem medo. Kaz Brekker tinha ido embora, e Mãos Sujas tinha chegado para fazer o trabalho pesado.

“Ela mora na Burstraat 19”, Kaz falou com sua grossa voz rouca. “Terceiro andar, gerânios nos canteiros das janelas. Há dois Dregs esperando do lado de fora da porta dela agora, e se eu não sair daqui inteiro e me sentindo vitorioso, eles incendiarão aquele lugar do chão ao telhado. O fogo vai subir em segundos, queimando pelos dois lados com a pobre Elise presa no meio. Seu cabelo loiro vai pegar fogo primeiro. Como o pavio de uma vela.”

“Você está blefando”, disse Geels, mas sua mão na pistola estava tremendo.

Kaz levantou a cabeça e respirou fundo. “Está ficando tarde agora. Você ouviu a sirene. Sinto o cheiro do porto no vento, mar e sal, e talvez – é cheiro de fumaça que estou sentindo?” Havia prazer em sua voz.

Pelos Santos, Kaz, Inej pensou miseravelmente. O que você fez agora?

Mais uma vez, o dedo de Geels se contraiu no gatilho, e Inej ficou tensa.

“Eu sei, Geels. Eu sei”, disse Kaz com simpatia. “Todo aquele planejamento, esquemas e subornos para nada. É o que você está pensando neste momento. Como será ruim voltar a pé para casa sabendo que perdeu. O quanto seu chefe ficará irritado quando aparecer de mãos vazias e muito mais pobre. Como seria prazeroso colocar uma bala no meu coração. Você pode fazer isso. Puxar o gatilho. Todos nós podemos morrer juntos. Eles podem levar os nossos corpos para a Barcaça da Ceifadora para queimar, como acontece com todos os indigentes. Ou você pode engolir seu orgulho, voltar para Burstraat, deitar a cabeça no colo de sua menina, adormecer ainda respirando, e sonhar com sua vingança. Cabe a você, Geels. Quer ir para casa esta noite?”

Geels procurou os olhos de Kaz, e o que quer que tenha visto neles fez seus ombros caírem. Inej ficou surpresa ao sentir uma pontada de compaixão por ele. Ele tinha entrado neste lugar flutuando em empáfia, um sobrevivente, um campeão do Barril. Ele sairia como outra vítima de Kaz Brekker.

“Você terá o que merece um dia, Brekker.”

“Eu terei”, disse Kaz, “se há alguma justiça no mundo. E todos nós sabemos o quanto isso é provável.”

Geels abaixou o braço. A pistola pendia inutilmente ao seu lado.

Kaz recuou, escovando a frente de sua camisa, onde o cano da arma tinha encostado. “Vá dizer ao seu general para manter os Pontas Negras fora do Porto 5, e que esperamos que ele nos compense pelo carregamento de jurda que perdemos, mais cinco por cento por sacar uma arma em terreno neutro e cinco por cento mais por ser um grupo tão espetacular de imbecis.”

Em seguida, a bengala de Kaz balançou em um arco súbito. Geels gritou enquanto os ossos do seu punho se quebravam. A arma caiu sobre as pedras do calçamento.

“Eu já havia baixado a arma!”, gritou Geels, segurando a mão. “Já havia baixado!”

“Se apontar uma arma para mim de novo, quebrarei ambos os punhos, e você terá que contratar alguém para ajudá-lo a mijar.” Kaz tocou o brim de seu chapéu com a ponta da bengala. “Ou talvez possa pedir à encantadora Elise para fazer isso por você.”

Kaz se agachou ao lado de Bolliger. O grandalhão choramingou. “Olhe para mim, Bolliger. Supondo que não sangre até a morte esta noite, você tem até o pôr do sol de amanhã para sair de Ketterdam. Se eu ouvir falar que você foi visto perto dos limites da cidade, eles irão encontrá-lo enfiado em um barril na Fritada do Cilla.” Então ele olhou para Geels. “Se você ajudar Bolliger, ou se eu descobrir que ele está envolvido com os Pontas Negras, não pense que não irei atrás de você.”

“Por favor, Kaz”, gemeu Bolliger.

“Você tinha uma casa, e enfiou uma bola de demolição pela porta da frente, Bolliger. Não espere empatia da minha parte.” Ele se levantou e olhou para o relógio de bolso. “Não imaginei que fôssemos demorar tanto. É melhor eu ir embora ou a pobre Elise vai ficar um pouco esquentada.”

Geels balançou a cabeça. “Há algo errado com você, Brekker. Não sei o que você é, mas algo não se encaixa.”

Kaz inclinou a cabeça para um lado. “Você é dos subúrbios, não é, Geels? Veio para o centro para tentar a sorte?” Ele alisou sua lapela com a mão enluvada. “Bem, sou o tipo de bastardo que só o Barril é capaz de produzir.”

Apesar da arma carregada aos pés dos Pontas Negras, Kaz deu-lhes as costas e saiu mancando pelos paralelepípedos em direção ao arco oriental. Jesper agachou-se ao lado de Bolliger e deu-lhe um tapinha na bochecha. “Idiota”, disse com tristeza, e seguiu Kaz para fora do Mercado. Do telhado, Inej continuou a observar enquanto Oomen pegava e guardava a arma de Geels, e os Pontas Negras trocavam algumas palavras baixinho entre si.

“Não me abandone”, Big Bolliger implorou. “Não me deixe aqui.” Ele tentou agarrar a barra da calça de Geels.

Geels se desvencilhou dele. Deixaram-no em posição fetal, perdendo sangue sobre as pedras do calçamento.

Inej arrancou o rifle das mãos de Van Daal antes de soltá-lo.

“Vá para casa”, disse para o guarda. Ele lançou um único olhar apavorado por cima do ombro e correu descendo pela passarela. Ao longe, Big Bol começava a tentar se arrastar pelo chão do Mercado. Ele podia ser estúpido o suficiente para enganar Kaz Brekker, mas havia sobrevivido esse tempo todo no Barril, e isso exigia força de vontade.

Talvez sobrevivesse.

Vá ajudá-lo, disse uma voz dentro dela. Poucos momentos atrás, ele tinha sido seu irmão de combate. Parecia errado deixá-lo sozinho. Ela podia ir até ele, se oferecer para acabar com seu sofrimento rapidamente, segurar sua mão enquanto ele morria. Ela poderia buscar um medik para salvá-lo.

Em vez disso, ela fez uma rápida oração na língua de seus Santos e começou a descer a íngreme face exterior do muro. Inej sentia pena do menino que morreria sozinho, sem ninguém para confortá-lo em suas últimas horas, ou que poderia viver e passar a vida como um exilado. Mas o trabalho da noite ainda não havia terminado, e a Espectro não tinha tempo para traidores.





Kaz foi recebido com festa ao surgir no arco oriental, Jesper seguindo atrás dele. Kaz achava que Jesper já estava começando a ficar mal-humorado.

Dirix, Rotty e os outros correram na direção deles, assoviando e gritando, com os revólveres de Jesper sobre suas cabeças. A tripulação tinha tido só um breve vislumbre da negociação com Geels, mas tinha escutado a maior parte. Agora eles estavam cantando “A Burstraat está pegando fogo! Os Dregs não têm água!”

“Eu não posso acreditar que ele simplesmente enfiou o rabo entre as pernas!”, zombou Rotty. “Ele tinha uma pistola carregada nas mãos!”

“Diga-nos o que sabia sobre o guarda”, Dirix implorou.

“Não pode ser algo banal.”

“Eu ouvi falar de um cara em Sloken que gostava de rolar em calda de maçã e, em seguida, pegar dois...”

“Não vou falar nada”, disse Kaz. “Holst pode ser útil no futuro.”

O clima era tenso, e as risadas tinham o ritmo frenético que surge depois que um desastre quase acontece. Alguns deles ficaram esperando uma briga e ainda estavam ansiosos por uma. Mas Kaz sabia que havia mais do que isso, e o fato de ninguém ter mencionado o nome de Big Bolliger não passou despercebido. Eles estavam muito abalados por sua traição – tanto a revelação quanto a maneira como Kaz o havia punido. Por baixo de todos os gritos e empurrões, havia medo. Ótimo, Kaz dependia do fato de que os Dregs eram todos assassinos, ladrões e mentirosos. Ele só tinha que garantir que não se acostumassem a mentir para ele.

Kaz despachou dois deles para manter um olho em Big Bol e se certificar de que ele, caso conseguisse ficar de pé, deixaria a cidade. Os outros poderiam voltar para a Ripa e para o Clube do Corvo para beber sem preocupações, fazer uma algazarra e espalhar a notícia dos eventos da noite. Eles diriam o que tinham visto, inventariam o resto e, com cada releitura, Mãos Sujas ficaria mais louco e mais cruel. Mas Kaz tinha negócios a tratar e sua primeira parada seria o Porto 5.

Jesper atravessou seu caminho. “Você deveria ter me avisado sobre Big Bolliger”, disse em um sussurro furioso.

“Não me diga como comandar meus negócios, Jes.”

“Você acha que fui subornado também?”

“Se pensasse que você foi subornado, estaria segurando suas tripas no chão do Mercado junto com Big Bol, então cale a boca.”

Jesper balançou a cabeça e pousou as mãos nos revólveres que tinha recuperado com Dirix. Sempre que ficava irritado, gostava de colocar as mãos em uma arma, como uma criança que procura o conforto de seu brinquedo favorito. Teria sido fácil demais fazer as pazes. Kaz poderia ter dito a Jesper que sabia que ele não era um traidor, lembrá-lo de que tinha confiado nele o suficiente para torná-lo seu único auxiliar de verdade em uma briga que poderia ter dado muito errado aquela noite. Em vez disso, disse: “Vá em frente, Jesper. Há uma linha de crédito esperando você no Clube do Corvo. Jogue até amanhecer ou ficar sem sorte, o que vier primeiro.”

Jesper fez uma careta, mas não conseguiu esconder o brilho de cobiça em seus olhos.

“Outro suborno?”

“Sou uma criatura de hábitos.”

“Para sua sorte, eu também sou.” Ele hesitou por um tempo e disse: “Você não quer que a gente te acompanhe? Os meninos de Geels devem estar irritados depois do que aconteceu.”

“Deixe que venham”, disse Kaz, e se virou na direção de Nemstraat sem falar mais nada. Se você não podia andar sozinho por Ketterdam após o anoitecer, então era melhor pendurar no pescoço um cartaz dizendo “molenga” e se deitar para ganhar uma surra.

Ele podia sentir os olhos dos Dregs em suas costas enquanto cruzava a ponte. Não precisava ouvir seus sussurros para saber o que estariam dizendo. Eles queriam beber com ele, ouvi-lo explicar como havia descoberto que Big Bolliger tinha se bandeado para o lado dos Pontas Negras, ouvi-lo descrever o olhar de Geels quando soltou a pistola. Mas eles nunca conseguiriam isso de Kaz e, se não gostassem disso, poderiam procurar outro bando.

Independente da opinião que tivessem de Kaz, todos andariam um pouco mais empertigados aquela noite. Era por isso que ficavam, por isso que tinham dado a ele o mais próximo do que se entende por lealdade que conseguiam. Quando se tornou oficialmente um membro dos Dregs, ele tinha doze anos e sua gangue era motivo de chacota, crianças de rua e marginais disputando no jogo dos copos e aplicando golpes de segunda categoria usando uma casa velha da pior parte do Barril. Mas ele não havia precisado de uma gangue excelente, apenas de uma que pudesse tornar excelente – uma que precisasse dele.

Agora eles tinham seu próprio território, a sua própria ala de jogos de azar e aquela casa velha tinha se tornado a Ripa, um lugar aquecido e seco para se fazer uma refeição quente ou se esconder quando estivesse ferido. Agora os Dregs eram temidos. Kaz tinha conquistado isso para eles e não era obrigado a jogar conversa fora. Além disso, Jesper iria fazer uma média. Alguns drinques, algumas jogadas, e a natureza agradável do atirador de elite voltaria. Ele perdoava tão fácil quanto se embebedava e tinha o dom de fazer as vitórias de Kaz soarem como se pertencessem a todos.

Conforme Kaz descia por um dos pequenos canais que o levariam ao Porto 5, percebeu que se sentia, pelos Santos, que se sentia quase esperançoso. Talvez devesse ver um medik. Os Pontas Negras vinham mordiscando seus calcanhares há semanas e agora ele os tinha obrigado a mostrar suas cartas. Sua perna não estava muito ruim também, apesar do frio de inverno. A dor estava sempre lá, mas aquela noite era apenas uma palpitação maçante. Ainda assim, uma parte dele se perguntava se a negociata era algum tipo de teste que Per Haskell tinha armado para ele. Haskell era perfeitamente capaz de se convencer de que ele era o gênio fazendo os Dregs prosperarem, especialmente se um dos seus comparsas estivesse sussurrando em seu ouvido.

Aquela ideia não era fácil de digerir, mas Kaz podia se preocupar com Per Haskell no dia seguinte. Agora ele se certificaria de que tudo estava correndo dentro do cronograma no porto e então iria para casa na Ripa para um pouco de sono necessário. Ele sabia que Inej o estava seguindo escondida. Ela o havia acompanhado por todo o caminho desde o Mercado. Ele não quis chamá-la. Ela se faria visível quando estivesse pronta. Normalmente, ele gostava do silêncio. Na verdade, ele costuraria de bom grado os lábios da maioria das pessoas. Mas, quando ela queria, Inej tinha um jeito de fazer seu silêncio ser sentido. Era um silêncio que cutucava você.

Kaz conseguiu suportá-lo durante todo o caminho passando as grades de ferro da Zentzbridge, coberta de pequenos pedaços de corda amarrada em nós elaborados, orações dos marinheiros para o retorno seguro do mar. Besteira supersticiosa. Finalmente, ele desistiu e disse: “Desembucha, Espectro.”

A voz dela veio do escuro. “Você não mandou ninguém para o Burstraat.”

“Por que deveria?”

“Se Geels não chegar lá a tempo...”

“Ninguém está ateando fogo no Burstraat 19.”

“Eu ouvi a sirene...”

“Uma coincidência feliz. Eu tiro inspiração de onde encontro.”

“Você estava blefando, então. Ela nunca esteve em perigo.”

Kaz deu de ombros, sem vontade de responder. Inej sempre tentava arrancar pedacinhos de decência dele. “Quando todo mundo acha que você é um monstro, não é preciso perder tempo fazendo monstruosidades.”

“Por que você concordou com o encontro se sabia que era uma armadilha?”

Ela estava em algum lugar à direita dele, movendo-se sem produzir som. Tinha ouvido outros membros da gangue dizerem que ela se movia como um gato, mas ele tinha a impressão de que gatos amariam a oportunidade de aprender seus métodos.

“Eu diria que a noite foi um sucesso”, disse ele. “Você não?”

“Você quase foi morto. E o Jesper também.”

“Geels esvaziou os cofres dos Pontas Negras pagando subornos inúteis. Descobrimos um traidor, restabelecemos nossa prioridade no Porto 5 e eu saí sem um arranhão sequer. A noite foi um sucesso.”

“Há quanto tempo você sabe sobre Big Bolliger?”

“Semanas. Não teremos gente suficiente. Isso me faz lembrar de algo... deixe o Rojakke partir.”

“Por quê? Não há ninguém como ele nas mesas.”

“Muitos idiotas sabem se virar com um baralho de cartas. Rojakke é um pouco rápido demais. Ele está roubando uma parte.”

“Ele é um bom crupiê, e tem uma família para sustentar. Você poderia lhe dar uma advertência, tirar um dedo.”

“Aí ele não seria mais um bom crupiê, seria?”

Quando um crupiê era pego desviando dinheiro de um salão de jogos de azar, o operador cortava seus dedos mindinhos. Era uma daquelas punições ridículas que de alguma forma tinha se tornado a norma entre as gangues. Era uma punição que acabava com o equilíbrio do trapaceiro, forçando-o a reaprender seu modo de embaralhar e mostrava a qualquer empregador futuro que ele precisava ser vigiado. Mas isso também acabava deixando-o desajeitado nas mesas. Isso significava que ele estava se concentrando em coisas simples como a mecânica das apostas em vez de manter um olho nos jogadores.

Kaz não podia ver o rosto de Inej no escuro, mas sentiu sua desaprovação.

“Seu deus é a ganância, Kaz.”

Ele quase riu. “Não, Inej. A ganância se curva a mim. É minha serva e minha alavanca.”

“E a que deus você serve, então?”

“Qualquer um que me traga sorte.”

“Não acho que os deuses funcionem dessa maneira.”

“Não acho que eu me importo.”

Ela soltou um suspiro exasperado. Apesar de tudo o que havia passado, Inej ainda acreditava que seus Santos sulis tomavam conta dela. Kaz sabia disso, e por alguma razão adorava irritá-la. Ele desejou poder ver sua expressão agora. Havia sempre algo muito gratificante no pequeno sulco entre as sobrancelhas negras.

“Como sabia que eu conseguiria alcançar Van Daal a tempo?”, ela perguntou.

“Você sempre consegue.”

“Deveria ter me alertado.”

“Pensei que seus Santos gostariam do desafio.”

Por um momento ela não disse nada, até que a ouviu de algum lugar atrás dele. “Os homens zombam dos deuses até precisarem deles, Kaz.”

Ele não a viu partir, apenas sentiu sua ausência.

Kaz sacudiu a cabeça irritado. Dizer que confiava em Inej seria um exagero, mas podia admitir para si mesmo que tinha aprendido a contar com ela. Tinha seguido seu instinto ao saldar a dívida de seu contrato de servidão com o Menagerie e isso custou dolorosamente aos Dregs. Per Haskell teve de ser convencido, mas Inej foi um dos melhores investimentos que Kaz já havia feito. O fato de ela ser tão boa em permanecer invisível a tornava uma excelente ladra de segredos, a melhor no Barril. Mas o fato de que ela podia simplesmente ser imperceptível o incomodava. Ela nem sequer tinha cheiro. Todas as pessoas tinham um cheiro, e esses cheiros contavam histórias – uma ponta de carbólico nos dedos de uma mulher ou fumaça de madeira em seu cabelo, a lã molhada do terno de um homem, ou o toque de pólvora persistente nas mangas de sua camisa. Mas não Inej. De alguma forma ela havia dominado a invisibilidade. Era um ativo valioso. Então, por que não podia simplesmente fazer seu trabalho e poupá-lo de seu humor?

De repente, Kaz sabia que não estava sozinho. Ele fez uma pausa, escutando. Havia cortado caminho por um beco estreito dividido por um canal escuro. Não havia postes ali e o tráfego de pedestres era pouco, nada além da lua brilhante e dos pequenos barcos batendo contra suas amarras. Ele baixou a guarda, deixou a mente ceder à distração.

O vulto escuro de um homem apareceu no começo do beco.

“Qual o problema?”, perguntou Kaz.

A forma investiu contra ele. Kaz girou a bengala em um arco baixo. Ela deveria ter feito contato direto com as pernas de seu agressor, mas, em vez disso, atravessou o espaço vazio. Tropeçou, desequilibrado com a força de seu ataque. Então, de alguma forma, o homem estava bem na frente dele. Um punho acertou a mandíbula de Kaz. Ele sacudiu as estrelas que cintilaram sobre sua cabeça. Girou e atacou novamente. Mas não havia ninguém lá. A cabeça pesada da bengala dele zuniu pelo ar e bateu com força contra a parede.

Kaz sentiu a bengala ser arrancada de suas mãos por alguém à sua direita. Havia mais de um deles? E então uma figura atravessou a parede. A mente dele cambaleou e vacilou, tentando entender o que via enquanto uma névoa se transformava em capa, botas, o vislumbre pálido de um rosto. Fantasmas, pensou Kaz. Um medo infantil, mas vinha com uma certeza absoluta.

Jordie tinha vindo se vingar finalmente. É hora de pagar suas dívidas, Kaz. Tudo tem um preço. O pensamento passou pela mente de Kaz em uma humilhante onda turbulenta de pânico e então o fantasma estava em cima dele, e ele sentiu a pontada afiada de uma agulha em seu pescoço. Um fantasma com uma seringa? Tolo, ele pensou. E então cedeu à escuridão.



Kaz acordou com o cheiro forte de amônia. Sua cabeça caiu para trás enquanto recobrava totalmente a consciência. O velho na frente dele usava as vestes de um medik de universidade. Ele segurava uma garrafa de wuftsalts e a sacudia debaixo do nariz de Kaz. O fedor era quase insuportável.

“Fique longe de mim”, disse Kaz com aspereza.

O medik olhou-o friamente, devolvendo as wuftsalts à sua bolsa de couro. Kaz flexionou os dedos, mas era tudo o que podia fazer. Tinha sido algemado a uma cadeira com os braços para trás das costas. O que quer que tivessem injetado nele o tinha deixado grogue.

O medik moveu-se para o lado, Kaz piscou duas vezes, tentando limpar a vista e dar sentido ao luxo absurdo ao seu redor. Ele esperava acordar no covil dos Pontas Negras ou de alguma outra gangue rival. Mas isso não era uma ostentaçãozinha barata do Barril. Um muquifo enfeitado como esse custava dinheiro de verdade – painéis de mogno com entalhes de ondas espumantes e peixes voadores, prateleiras forradas de livros, janelas chumbadas, ele estava quase certo de que era um DeKappel legítimo. Um desses retratos recatados a óleo de uma senhora com um livro aberto no colo e um cordeiro deitado a seus pés. O homem observando-o por trás de uma mesa ampla tinha a aparência de um mercador próspero. Mas se essa era a sua casa, por que havia soldados armados do stadwatch guardando a porta?

Droga, Kaz pensou, será que estou sendo preso? Se assim for, esse comerciante estava prestes a ter uma surpresa. Graças a Inej, ele tinha informações sobre cada juiz, oficial de justiça e alto conselheiro de Kerch. Ele estaria fora de sua cela antes de o sol nascer. Exceto pelo fato de não estar em uma cela, e sim acorrentado a uma cadeira. Então o que diabos estava acontecendo?

O homem estava na casa dos quarenta, tinha um rosto bonito, porém magro, e seu cabelo estava batendo em retirada da sua testa. Quando Kaz o olhou nos olhos, o homem limpou a garganta e uniu os dedos das mãos, pressionando-os.

“Senhor Brekker, espero que não esteja se sentindo muito mal.”

“Pode tirar esse velho caquético da minha frente. Eu estou bem.”

O comerciante acenou para o medik. “Você pode ir. Por favor, envie-me a fatura. É claro que aprecio a sua discrição sobre isso.”

O medik pegou sua bolsa e saiu do quarto. Assim que o fez, o comerciante se levantou e pegou um maço de papéis de sua mesa. Ele usava um casaco e um colete com o corte perfeito de todos os comerciantes kerches – escuro, refinado, deliberadamente antiquado. Mas o relógio de bolso e o alfinete da gravata diziam a Kaz tudo o que ele precisava saber: elos pesados de folhas de louro formavam a corrente de ouro do relógio, e o pino era um rubi enorme e perfeito.

Vou arrancar essa joia gorda de onde está e espetar o pino direto no pescoço desse mercador por me acorrentar a uma cadeira, Kaz pensou. Mas tudo o que disse foi: “Van Eck.”

O homem assentiu. Sem se curvar, é claro. Comerciantes não se curvavam diante da escória do Barril. “Então você me conhece?”

Kaz conhecia os símbolos e as joias de todas as casas comerciais de Kerch. O brasão de Van Eck era o louro vermelho. Não precisava ser um professor para fazer a conexão.

“Conheço você”, disse ele. “Você é um daqueles mercadores moralistas que estão sempre tentando limpar o Barril.”

Van Eck deu outro pequeno aceno de cabeça. “Eu tento encontrar homens honestos para trabalhar.”

Kaz riu. “Qual a diferença entre apostar no Clube do Corvo e especular no chão do Mercado?”

“Um é roubo, o outro é comércio.”

“Quando um homem perde seu dinheiro, ele pode ter dificuldade em distinguir um do outro.”

“O Barril é um antro de imundice, vício, violência...”

“Quantos navios enviados por você que navegam pelos portos de Ketterdam nunca retornaram?”

“Isso não importa...”

“Um em cada cinco, Van Eck. Um em cada cinco navios que envia em busca de café, jurda e peças de seda vai parar no fundo do mar, se estilhaça nas rochas, é capturado por piratas. Uma em cada cinco tripulações morta, seus corpos perdidos em águas estrangeiras, comidos por peixes nas profundezas do mar. Não vamos falar de violência.”

“Não vou discutir ética com um moleque do Barril.”

Kaz realmente não esperava que ele fizesse isso. Estava apenas tentando ganhar tempo enquanto testava o quanto as algemas estavam presas em seus punhos. Ele deixou os dedos sentirem o comprimento da corrente tanto quanto possível, ainda confuso sobre o local para onde Van Eck o tinha trazido. Embora Kaz nunca o tivesse conhecido pessoalmente, tivera motivos para aprender a planta da casa de Van Eck por dentro e por fora. Onde quer que estivesse, não estava na mansão do mercador.

“Já que não me trouxe aqui para filosofar, qual o assunto?” Essa era a pergunta que abria qualquer reunião. A saudação de um colega, não o apelo de um prisioneiro.

“Tenho uma proposta para você. Na verdade, o Conselho tem.”

Kaz escondeu sua surpresa. “Será que o Conselho Mercante começa todas as negociações com uma surra?”

“Considere isso um aviso. E uma demonstração.”

Kaz se lembrou da silhueta no beco, a forma como havia aparecido e desaparecido como um fantasma. Jordie. Ele próprio se censurou. Não era Jordie, seu balofo. Foco. Eles o capturaram porque tinha se empolgado com uma vitória e se distraído. Esta era sua punição e ele não pretendia cometer o mesmo erro novamente. Isso não explica o fantasma. Por enquanto, ele deixou o pensamento de lado.

“Que utilidade eu poderia ter para o Conselho Mercante?”

Van Eck folheou os papéis em suas mãos. “Você foi preso pela primeira vez aos dez”, disse ele, lendo a página.

“Todo mundo se lembra da sua primeira vez.”

“Duas vezes novamente naquele ano, duas vezes aos onze. Foi pego quando o stadwatch fez uma batida em um salão de jogos quando tinha quatorze anos, mas não cumpriu mais pena desde então.”

Era verdade. Ninguém tinha conseguido ferrar com Kaz em três anos. “Estou limpo”, disse Kaz. “Encontrei um trabalho honesto, vivo uma vida de trabalho e oração.”

“Não blasfeme”, Van Eck disse de um jeito suave, mas seus olhos brilharam brevemente de raiva.

Um homem de fé, Kaz observou, enquanto sua mente passeava por tudo o que sabia sobre Van Eck – próspero, piedoso, um viúvo que recentemente havia se casado com uma noiva pouco mais velha do que o próprio Kaz. E, claro, havia o mistério do filho de Van Eck.

Van Eck continuou folheando o arquivo. “Você administra apostas em lutas, cavalos e seus próprios jogos de azar. Você tem sido o operador do Clube do Corvo por mais de dois anos. Você é o mais novo a comandar uma loja de apostas e dobrou o lucro do lugar nesse tempo. Você é um chantagista...”

“Eu negocio informações.”

“Um vigarista...”

“Eu crio oportunidade.”

“Um cafetão e um assassino...”

“Eu não lido com prostitutas, e só mato quando há motivo.”

“E que motivo é esse?”

“O mesmo que o seu, mercador. Lucro.”

“Como recebe as suas informações, Senhor Brekker?”

“Você pode dizer que eu sou uma chave-mestra.”

“Deve ser uma muito talentosa.”

“Sou, de fato.” Kaz inclinou-se ligeiramente para trás. “Você vê? Todo homem é um cofre, um cofre de segredos e desejos. Agora, há aqueles que tomam o caminho da brutalidade, eu prefiro uma abordagem mais gentil – a pressão certa aplicada no momento certo, no lugar certo. É uma coisa delicada.”

“Você sempre fala através de metáforas, Senhor Brekker?”

Kaz sorriu. “Não é uma metáfora.”

Antes que as correntes alcançassem o chão, ele já havia se levantado da cadeira. Saltou pela mesa, pegando com uma mão um abridor de cartas e agarrando a frente da camisa de Van Eck com a outra. O tecido fino amarrotou enquanto pressionava a lâmina na garganta de Van Eck. Kaz se sentia tonto, e seus braços e pernas estavam tremendo por ter ficado preso à cadeira, mas tudo parecia mais ensolarado com uma arma nas mãos.

Os guardas de Van Eck o encaravam, todos com armas e espadas em punho. Ele podia sentir o coração do mercador batendo debaixo da lã de seu terno.

“Não acho que preciso desperdiçar meu fôlego com ameaças”, disse Kaz. “Diga-me como chegar à porta ou o levarei pela janela comigo.”

“Acho que posso fazê-lo mudar de ideia.”

Kaz o sacudiu. “Pouco me importa quem você é ou o tamanho desse rubi. Você não me arranca das minhas próprias ruas. E não se tenta fazer um acordo comigo enquanto estou acorrentado.”

“Mikka”, Van Eck chamou.

E então aconteceu novamente. Um menino atravessou a parede da biblioteca. Ele era pálido como um cadáver e vestia um casaco bordado em azul dos Grishas Hidros com uma fita vermelha e dourada na lapela indicando sua associação com a casa de Van Eck. Mas nem mesmo um Grisha poderia simplesmente atravessar uma parede. Drogado, Kaz pensou, tentando não entrar em pânico. Eu fui drogado. Ou aquilo era algum tipo de ilusão, do tipo que encenavam nos teatros da Aduela Leste – uma moça cortada ao meio, pombas em um bule de chá.

“Que diabos é isso?”, ele rosnou.

“Solte-me e eu explicarei.”

“Pode explicar exatamente de onde está.”

Van Eck deixou escapar uma respiração curta e trêmula. “O que está vendo são os efeitos da jurda parem.”

“Jurda é só um estimulante.” As pequenas flores secas eram cultivadas em Novyi Zem e vendidas em lojas de toda Ketterdam. Quando ainda era novo entre os Dregs, Kaz tinha mastigado jurda para ficar alerta durante vigílias. Tinha deixado seus dentes manchados de laranja por dias. “É inofensiva”, disse ele.

“Jurda parem é algo completamente diferente e definitivamente não é inofensiva.”

“Então me drogou.”

“Não você, Senhor Brekker. Mikka.”

Kaz observou a palidez doentia do rosto do Grisha. Ele tinha olheiras escuras, e a constituição frágil e trêmula de alguém que tinha perdido várias refeições e parecia não se importar.

“Jurda parem é uma prima da jurda comum”, continuou Van Eck. “Vem da mesma planta. Não temos certeza do processo de produção da droga, mas uma amostra foi enviada ao Conselho Mercante de Kerch por um cientista chamado Bo-Yul Bayur.”

“Shu?”

“Sim. Ele queria desertar, então nos enviou uma amostra para nos convencer de suas reivindicações em relação aos efeitos extraordinários da droga. Por favor, Senhor Brekker, esta é uma posição das mais desconfortáveis. Se quiser, posso lhe dar uma pistola e podemos sentar e discutir isso de forma mais civilizada.”

“Uma pistola e minha bengala.”

Van Eck apontou para um de seus guardas, que saiu do quarto e voltou um momento depois com a bengala de Kaz – Kaz ficou tão contente por ele ter usado a maldita porta.

“Primeiro a pistola”, disse Kaz. “Devagar.” O guarda desembainhou sua arma e a entregou pelo cabo. Kaz a segurou e a apontou em um movimento rápido. Em seguida, liberou Van Eck, jogou o abridor de cartas sobre a mesa e pegou a bengala da mão do guarda. A pistola era mais útil, mas a bengala de Kaz trazia um alívio que ele não se deu ao trabalho de quantificar.

Van Eck deu alguns passos para trás, distanciando-se da arma carregada de Kaz. Ele não parecia ansioso para sentar, muito menos Kaz, que permaneceu perto da janela, pronto para fugir, se necessário.

Van Eck respirou fundo e tentou ajeitar seu terno.

“Essa bengala é uma peça e tanto, Senhor Brekker. Foi feita por um Fabricador?”

De fato, tinha sido feita por um Grisha Fabricador, alinhada e perfeitamente ponderada para quebrar ossos. “Não é da sua conta. Continue falando, Van Eck.”

O mercador pigarreou. “Quando Bo Yul-Bayur nos enviou a amostra de jurda parem, nós a demos para três Grishas, um de cada Ordem.”

“Voluntários felizes?”

“Sob contrato de servidão”, admitiu Van Eck. “Os dois primeiros eram um Fabricador e um Curandeiro que serviam o Conselheiro Hoede. Mikka é um Hidro. Ele é meu. Você viu o que ele pode fazer usando a droga.”

Hoede. Por que esse nome soava familiar?

“Não sei o que vi”, disse Kaz ao olhar para Mikka. O olhar do menino estava focado intensamente em Van Eck, como se esperando seu próximo comando. Ou talvez outra dose.

“Um Hidro comum pode controlar correntes, conjurar água ou a umidade do ar ou de uma fonte próxima. Eles controlam as marés em nosso porto. Mas, sob influência da jurda parem, um Hidro pode alterar seu próprio estado de sólido para líquido ou gasoso e vice-versa, e fazer o mesmo com outros objetos. Mesmo uma parede.”

Kaz estava tentado a contradizê-lo, mas não conseguia explicar o que tinha acabado de ver de outra maneira. “Como?”

“É difícil de explicar. Já ouviu falar dos amplificadores que alguns Grishas vestem?”

“Já os vi”, disse Kaz. Ossos de animais, dentes, escamas. “Ouvi dizer que são difíceis de encontrar.”

“Muito. Mas eles só amplificam o poder de um Grisha. A jurda parem altera a percepção de um Grisha.”

“E daí?”

“Um Grisha manipula a matéria em seus níveis mais fundamentais. Eles chamam isso de Pequena Ciência. Sob a influência da parem, essas manipulações tornam-se mais rápidas e muito mais precisas. Em teoria, jurda parem é só um estimulante como sua prima comum. Mas ela parece aguçar e aprimorar os sentidos de um Grisha. Eles podem fazer conexões com velocidade extraordinária. Coisas que deveriam ser impossíveis se tornam possíveis.”

“O que a droga faz com pobres coitados como eu e você?”

Van Eck pareceu se eriçar levemente ao ser comparado com Kaz, mas disse: “É letal. Uma mente comum não pode tolerar a parem mesmo nas doses mais baixas.”

“Você disse que a deu a três Grishas. O que os outros podem fazer?”

“Aqui”, disse Van Eck, alcançando uma gaveta em sua mesa.

Kaz levantou a pistola. “Devagar.”

Com uma lentidão exagerada, Van Eck deslizou a mão na gaveta da mesa e tirou um pedaço de ouro. “Isso aqui já foi chumbo.”

“Não foi coisa nenhuma.”

Van Eck deu de ombros. “Só posso dizer o que vi. O Fabricador segurou um pedaço de chumbo em suas mãos, e momentos depois tínhamos isso.”

“Como sabe que é real?”, perguntou Kaz.

“Ele tem o mesmo ponto de fusão do ouro, o mesmo peso e maleabilidade. Se tiver alguma diferença em relação ao ouro, não conseguimos detectá-la. Pode testá-lo se quiser.”

Kaz enfiou a bengala debaixo do braço, pegou o pedaço pesado de ouro da mão de Van Eck e colocou-o no bolso. Se era real ou apenas uma imitação convincente, um naco amarelo daquele tamanho poderia comprar muitas coisas nas ruas do Barril.

“Você poderia ter conseguido isso em qualquer lugar”, Kaz apontou.

“Eu traria o Fabricador de Hoede para apresentá-lo, mas ele não está bem.”

Kaz olhou para a cara doentia de Mikka e sua testa úmida. A droga vinha claramente com um preço.

“Vamos dizer que tudo isso é verdade e não um truque barato com moedas. O que isso tem a ver comigo?”

“Talvez tenha ouvido falar dos Shu pagando toda sua dívida com os kerches com um fluxo repentino de ouro? O assassinato do embaixador comercial de Novyi Zem? O roubo de documentos de uma base militar em Ravka?”

Então, era esse o segredo por trás do assassinato do embaixador no banheiro. E o ouro naqueles três navios Shu só podia ter sido feito por um Fabricador. Kaz não tinha ouvido nada sobre os documentos ravkanos, mas assentiu de qualquer maneira.

“Acreditamos que todos esses eventos sejam trabalho de um Grisha sob o controle do governo Shu e sob a influência da jurda parem.”

Van Eck esfregou uma mão sobre a mandíbula. “Senhor Brekker, quero que pense por um momento sobre o que estou lhe contando. Homens que podem atravessar paredes – nenhum cofre ou fortaleza estará seguro novamente. Pessoas que podem criar ouro a partir de chumbo, ou qualquer outra coisa do tipo, que podem alterar o próprio tecido da realidade – os mercados financeiros seriam lançados no caos. A economia mundial entraria em colapso.”

“Muito excitante. O que quer de mim, Van Eck? Que eu roube um carregamento? A fórmula?”

“Não, quero que roube o homem.”

“Sequestrar Bo Yul-Bayur?”

“Salvá-lo. Um mês atrás recebemos uma mensagem de Yul-Bayur pedindo asilo. Ele estava preocupado com os planos de seu governo para a jurda parem e nós concordamos em ajudá-lo a desertar. Montamos um encontro, mas houve um confronto no ponto de entrega.”

“Com os Shu?”

“Não, com fjerdanos.”

Kaz franziu a testa. Os fjerdanos deviam ter espiões bem infiltrados em Shu Han ou Kerch se haviam descoberto sobre a droga e planos envolvendo Bo Yul-Bayur tão rapidamente.

“Então envie alguns de seus agentes atrás dele.”

“A situação diplomática é um pouco delicada. É essencial que nosso governo não esteja vinculado a Yul-Bayur de modo algum.”

“Você deve saber que ele está morto. Os fjerdanos odeiam os Grishas. Duvido que eles fossem deixar o conhecimento sobre essa droga vazar.”

“Nossas fontes dizem que ele está bem vivo e que está aguardando um julgamento.” Van Eck pigarreou. “Na Corte do Gelo.”

Kaz olhou para Van Eck por um longo minuto, depois caiu na gargalhada.

“Bem, foi um prazer ser nocauteado e mantido em cativeiro por você, Van Eck. Pode ter certeza de que retribuirei sua hospitalidade quando chegar a hora certa. Agora peça a um de seus lacaios para me mostrar a saída.”

“Estamos prontos a oferecer cinco milhões de kruges.”

Kaz guardou a pistola. Ele não temia por sua vida agora, estava apenas irritado por aquele sujeito desagradável ter desperdiçado seu tempo. “Talvez isso te surpreenda, Van Eck, mas nós, ratos do canal, valorizamos nossas vidas tanto quanto vocês.”

“Dez milhões.”

“Não faz sentido ganhar uma fortuna se não estarei vivo para gastá-la. Onde está meu chapéu? Seu Hidro o deixou para trás no beco?”

“Vinte.”

Kaz fez uma pausa. Tinha a estranha sensação de que o peixe esculpido nas paredes havia parado no meio de um salto para ouvir. “Vinte milhões de kruges?”

Van Eck assentiu. Ele não parecia feliz.

“Preciso convencer uma equipe a entrar em uma missão suicida. Isso não sairá barato.” Isso não era inteiramente verdade. Apesar do que tinha dito a Van Eck, havia muitas pessoas no Barril que não tinham muito apreço à vida.

“Dificilmente eu chamaria vinte milhões de kruges de barato”, Van Eck rebateu.

“A Corte do Gelo nunca foi invadida.”

“É por isso que precisamos de você, Senhor Brekker. É possível que Bo Yul-Bayur já esteja morto ou que tenha entregado todos os seus segredos para os fjerdanos, mas acreditamos que temos pelo menos um pouco de tempo para agir antes que o segredo da jurda parem seja colocado em jogo.”

“Se os Shu têm a fórmula...”

“Yul-Bayur alegou que tinha conseguido enganar seus superiores e manter em segredo os aspectos específicos da fórmula. Acreditamos que estejam operando com um suprimento limitado que Yul-Bayur deixou para trás.”

A ganância se curva a mim. Talvez Kaz tivesse sido arrogante demais naquela declaração. Agora a ganância estava servindo Van Eck. A alavanca estava funcionando, superando a resistência de Kaz, colocando-o no lugar.

Vinte milhões de kruges. Que tipo de trabalho seria esse? Kaz não sabia nada sobre espionagem ou disputas do governo, mas por que roubar Bo Yul-Bayur da Corte do Gelo seria diferente de tirar bens valiosos do cofre de um mercador? O cofre mais bem protegido do mundo, lembrou a si mesmo. Ele iria precisar de uma equipe muito especializada, uma equipe desesperada que não recuaria diante da possibilidade real de talvez não retornar dessa missão. E não seria capaz de organizá-la só com Dregs. Ele não tinha o talento necessário sob seu comando, e isso significava que teria de ser mais desconfiado do que de costume.

Mas se eles conseguissem isso, mesmo após Per Haskell tirar sua parte, a percentagem de Kaz nos ganhos seria suficiente para mudar tudo, para finalmente colocar em prática o sonho que tem desde que rastejou para fora de um porto frio com a vingança ardendo em seu coração. Sua dívida com Jordie seria finalmente saldada. Haveria outros benefícios, também. O Conselho Kerch deveria um favor a ele, sem falar no que essa invasão em particular faria por sua reputação. Infiltrar-se na impenetrável Corte do Gelo e arrebatar um prêmio do bastião da nobreza fjerdana e do seu poderio militar? Com um trabalho como esse no seu currículo e com esse tipo de pagamento em mãos, não precisaria mais de Per Haskell. Poderia começar a sua própria operação.

Mas algo não se encaixava. “Por que eu? Por que os Dregs? Há equipes mais experientes por aí.”

Mikka começou a tossir, e Kaz viu sangue em sua manga.

“Sente-se”, Van Eck instruiu, ajudando Mikka a sentar-se em uma cadeira e oferecendo ao Grisha o seu lenço. Ele sinalizou para um guarda. “Traga água.”

“Bem?”, insistiu Kaz.

“Quantos anos você tem, Senhor Brekker?”

“Dezessete.”

“Você não é preso desde os quatorze anos, e como sei que não é um homem honesto mais do que foi um garoto honesto, só posso supor que tem o talento que mais preciso em um criminoso: não ser capturado.” Van Eck abriu um discreto sorriso. “Há também a questão do meu DeKappel.”

“Tenho certeza de que não sei do que você está falando.”

“Seis meses atrás, um DeKappel a óleo no valor de quase cem mil kruges desapareceu da minha casa.”

“Uma perda e tanto.”

“Foi, especialmente porque haviam me garantido que minha galeria era impenetrável e que as trancas em suas portas eram infalíveis.”

“Lembro-me de ter lido sobre isso.”

“Sim”, admitiu Van Eck com um suspiro. “O orgulho é uma coisa perigosa. Estava ansioso para mostrar minha aquisição e todo o esforço que fiz para protegê-la, e apesar de todas as minhas salvaguardas, dos cães, dos alarmes e dos funcionários mais leais de toda Ketterdam, minha pintura se foi.”

“Meus pêsames.”

“Ela ainda ressurgirá em algum lugar do mercado mundial.”

“Talvez o ladrão já tivesse um comprador em vista.”

“Uma possibilidade, é claro. Mas estou inclinado a acreditar que o ladrão a levou por outro motivo.”

“E que motivo seria esse?”

“Só para provar que podia.”

“Parece um risco estúpido para mim.”

“Bem, quem pode adivinhar os motivos de um ladrão?”

“Não eu, certamente.”

“Pelo que sei da Corte do Gelo, quem quer que tenha roubado minha DeKappel é exatamente quem preciso para esse trabalho.”

“Então seria melhor contratar esse ladrão. Ou essa ladra.”

“De fato. Mas terei de me contentar com você.”

Van Eck encarou Kaz como se esperasse encontrar uma confissão estampada em sua testa. Por fim, Van Eck perguntou: “Temos um acordo, então?”

“Não tão rápido. E o Curandeiro?”

Van Eck parecia perplexo.

“Quem?”

“Você disse que deu a droga a um Grisha de cada Ordem. Mikka é um Hidro, ele é o seu Etherealnik. O Fabricador que moldou aquele ouro era um Materialnik. Então, o que aconteceu com o Corporalnik? O Curandeiro?”

A expressão de Van Eck se contraiu um pouco, mas ele simplesmente disse: “Você me acompanha, Senhor Brekker?”

Cautelosamente, mantendo um olho em Mikka e nos guardas, Kaz seguiu Van Eck para fora da biblioteca e pelo corredor. A casa esbanjava riqueza mercante – paredes cobertas com painéis em madeira escura, assoalhos de azulejo preto e branco limpo, tudo de bom gosto, tudo perfeitamente contido e impecavelmente trabalhado. Mas ela transmitia a sensação de um cemitério. Os cômodos estavam desertos, as cortinas fechadas, os móveis cobertos por lençóis brancos de modo que cada câmara obscura pelas quais passaram parecia algum tipo de ambiente marinho esquecido cheio de icebergs. Hoede. Agora o nome fazia sentido. Tinha havido algum tipo de incidente na mansão de Hoede no Geldstraat na semana passada. O lugar todo foi isolado e tomado pela stadwatch. Kaz tinha ouvido rumores de um surto de piropora, mas nem mesmo Inej tinha sido capaz de descobrir mais sobre isso.

“Esta é a casa do Conselheiro Hoede”, disse Kaz, a pele arrepiada. Ele queria distância de qualquer praga, mas o mercador e seus guardas não pareciam remotamente preocupados. “Pensei que este lugar estava de quarentena.”

“O que aconteceu aqui não representa perigo para nós. E se fizer seu trabalho, Senhor Brekker, nunca representará.”

Van Eck conduziu-o por uma porta e entrou em um jardim bem cuidado, tomado pelo perfume fresco de néctar dos primeiros açafrões. O cheiro atingiu Kaz como um golpe no queixo. Memórias de Jordie ainda estavam frescas em sua mente, e por um momento Kaz não estava mais andando pelo jardim lateral do canal de um mercante rico, ele estava ajoelhado na grama da primavera, o sol quente batendo em seu rosto, a voz de seu irmão chamando-o para dentro de casa.

Kaz sacudiu a cabeça. Preciso de uma caneca do café mais escuro e amargo que puder encontrar, pensou. Ou talvez um verdadeiro soco no queixo.

Van Eck o levava a uma garagem de barcos que ficava de frente para o canal. A luz de fora filtrada por entre as suas janelas fechadas lançava formas na trilha do jardim. Um único guarda da cidade estava a postos ao lado da porta quando Van Eck pegou uma chave em seu bolso e a enfiou na pesada fechadura. Kaz cobriu a boca com a manga ao ser atingido pelo mau cheiro da sala fechada – urina, excrementos. Lá se foi o cheiro de primavera.

O quarto era iluminado por duas lanternas de vidro na parede. Um grupo de guardas estava de pé de frente para uma caixa de ferro grande, vidro quebrado iluminando o chão a seus pés. Alguns usavam o uniforme roxo da stadwatch, outros a farda verde-água da casa Hoede. Pelo que Kaz entendia agora ter sido uma janela de observação, viu outro guarda da cidade de frente para uma mesa vazia e duas cadeiras viradas.

Como os outros, o guarda estava de pé com os braços largados ao lado do corpo, rosto branco, olhos vidrados, olhando para o nada. Van Eck acendeu a luz em uma das lanternas e Kaz viu um corpo em um uniforme roxo caído no chão, de olhos fechados.

Van Eck suspirou e agachou-se. “Nós perdemos outro”, disse ele.

O menino era jovem, alguns poucos fios de um bigode acima do lábio.

Van Eck deu ordens para o guarda que os tinha deixado entrar, com a ajuda de um de seus servos ergueu o cadáver e o tirou do quarto. Os outros guardas não reagiram, apena